Sexta-feira, Maio 28, 2004
Quinta-feira, Maio 27, 2004
A lógica circular do João
Vários filósofos, poetas e escritores afirmam que todos os fenómenos da realidade (pelo menos, da parte da realidade de que temos consciência) se processam por meio de ciclos. Ciclos. Princípio-meio-fim-princípio-meio-fim, etc… Nascimento-crescimento-morte, se preferirem. No âmago de praticamente todas as religiões e mythos (no sentido clássico da palavra) está enraizada esta noção. O próprio Carl Sagan, no seu Os Dragões Do Éden, sugeria que, provavelmente, estes seriam um reflexo da própria psicologia humana, que insistia em reproduzir na sua mitologia a sua própria psicologia. Mostrava-se, no entanto, ligeiramente preocupado pelo facto de que as teorias dos próprios cosmólogos se assemelhassem perigosamente a esta concepção do Universo (a teoria do Big Bang parece obedecer a este princípio). Objectivamente, mesmo se considerarmos que nem todos os fenómenos obedecerão a esta regra, é um dado comprovado que grande número parece respeitá-la. O ciclo da vida, o ciclo da água, a História repete-se por ciclos, as fases da Lua, a rotação dos planetas nas suas órbitas, a evolução animal e vegetal… A própria noção de tempo está a ser posta em causa, já que cientistas indicam que o tempo não é um fluxo contínuo mas antes uma sucessão de momentos, de ciclos. A próxima analogia pode ser redundante, mas ajuda a compreender: os segundos e os minutos sucedem-se, mas cada um começa e acaba.
O Tao, conceito de difícil compreensão para as nossas mentes ocidentais, é qualquer coisa como a energia vital que permeia todo o Universo, razão para o seu aparecimento e sua força motriz. A natureza do Tao é, portanto, o movimento. O Tao é inimigo da imobilidade, e a elasticidade é umas das virtudes mais louvadas pelos Taoistas. Isto tudo está relacionado com os ciclos de que tenho andando a falar. Porque os ciclos, por definição, antecedem sempre outros ciclos e não se pode- nem deve- tentar travar o seu rumo.
Considerações metafísicas e afins à parte, não é difícil constatar as implicações concretas na esfera de realidade que nós ocupamos, desde no nosso dia-a-dia, à nossa percepção geral sobre as coisas que nos rodeiam. Pode ser difícil quebrar uma relação que nos é querida, mas não se pode viver a vida preso a uma relação do passado. Nem sempre é fácil começar uma empreitada (como o início de um ano escolar ou um novo emprego) mas é necessário fazê-lo. Não se pode ficar agarrado às alegrias passadas em detrimento do tempo presente; nem viver em função do futuro, pois ele não passa da consequência do presente. Esta noção avisa-nos em relação à utopias, já que nada é permanente e imutável- nem pode ser (poderíamos aqui encontrar um paralelismo à relatividade de Einstein). Da mesma forma, obriga-nos a desprezar o dogma, já que nada é absoluto. Pelo contrário, valoriza a flexibilidade (outro termo tão afecto aos Taoistas), e o que é a flexibilidade senão o motor da evolução?
Por isso eu sou a favor da mudança. Porque foi a capacidade de adaptação que levou o ser humano a tornar-se o animal dominante na Terra (para o bem e para o mal, infelizmente), e que é a condição essencial para a evolução das espécies. E porque assegurar as condições necessárias à Evolução é um direito e dever de todo o ser vivo, talvez um dos mais importantes. As implicações de este direito são extremamente amplas e são absolutamente indissociáveis da nossa vida social, política e pessoal.
Quarta-feira, Maio 26, 2004
Yesterday!
Ora cá estamos nós para mais uma quarta-feira...
Os mais atentos decerto repararam que o Sir Paul Macarteney ( uma prova viva de que as drogas não matam!), revelou “ao país e ao mundo” que a letra dessa bela canção de seu nome: Yesterday, havia sido escrita em Portugal.
Caros amigos, não é para me gabar ( de todo), mas eu já há uns tempos andava desconfiado de tal facto. Senão veja-se a letra:
Yesterday, all my troubles seemed so far away
Now it looks as though they're here to stay
Oh, I believe in yesterday.
Ora não terá sido este o pensamento de qualquer mortal quando chegava a Portugal na década de 60 a saber que cá ia passar uma temporada? Porém ainda conservavam uma esperança no regresso, vejam-se as palavras do artista ao acreditar no Yesterday...
Mas continuando... Como devem também saber nada mais in no Algarve estival, do que o estabelecimento comercial do Srº Paulo China (aqueles que não sabem quem é vejam uma qualquer revista daquelas de consultorio e procurem o Srº Figo e a “esponsa” que lá encontrarão um senhor alto e gordo sempre muito bem disposto, com os olhos meio rasgados), ora foi lá que o Sir escreveu a sua cançoneta, e dada a constituição do Srº Paulo China, Macarteney apercebeu-se do seguinte:
Suddenly, I'm not half to man I used to be,
There's a shadow hanging over me.
(no fundo estas palavras denotam um pensamento comparativo de inferioridade)
Cá esta! Paulo China já na década de 60 conseguia fazer “de sombra” a muito boa gente.
As palavras que se seguem, Paul dedicou ao sexo oposto, e é aqui que eu dirijo umas palavras quentes e amigáveis ao “gajedo”. Minhas amigas, aqui está a prova que acaba com aquela anedota parva da mulher e do golfinho. A prova reside no facto dela, como diz o Sir Paul se ter ido embora, o que revela sem dúvida nenhuma, alguma inteligência... Quem é que se lembraria de ir para o Algarve em 60 e tal?! Não se esqueçam que eram paí umas 6 horas só de carro... Ainda pergunta ele porque é que ela se foi embora, otário!
Why she had to go I don't know she wouldn't say.
I said something wrong, now I long for yesterday.
Bem aqui fica esta pequena reflexão! Tenham todos um excelente dia ao som de Yesterday.
Terça-feira, Maio 25, 2004
MTV's NewlyWeds
Existe mau timing e mau timing. Eleições para o Parlamento Europeu a um domingo em fim de semana prolongado com a campanha político-futeboleira que se tem feito é um exemplo da primeira. Não manter as urnas abertas até às 22h também. No entanto, enquanto bons portugas que somos, estamos é mais que habituados a lidar com péssimas decisões políticas desde 1580.
O que eu não entendo é o mau timing. E mau timing teve o Congresso do PSD deste fim de semana. Não que os Congressos dos Laranjas me atraiam sobremaneira. Muito honestamente, são poucos os oradores dessa fatia política que mereçam a minha atenção e o Durão certamente não é um deles. Deixando-me de rodeios: por que razão considero péssimo o timing do Congresso do PSD? Simples, porque não consegui ver nada para além dos títulos dos jornais sobre o assunto. Sei que se houver problemas de segurança a culpa é do PCP (?!?), sei que tudo é um desafio (inflação, desemprego, terrorismo [sic]).. e chega.
Oh shôr Durão, então marca-me um ajuntamento para um dia de romaria? Não sabe, então que estreou o novo NewlyWeds? Agora sem Jessica Simpson mas com Letizia Ortiz e su chico, não houve forma de não ver o casamento. Em directo ou diferido, em prospectiva ou respectiva, em análise profunda ou superficial, qualquer que fosse a hora do dia, qualquer que fosse o canal, todos os caminhos iam dar ao coração de Espanha. E, ou se ouviam os votos, ou o sim, ou as últimas palavras do padre, ou os comentários do José Castelo Branco sobre a finesse do chapéu de Maria José Ritta... Há coisas que têm de acontecer e ver isto era uma delas!
É nisto que se vê que Durão evoluiu como político: era exactamente de pouco tempo de antena que o PSD agora precisava. Mudanças de bastidores, Ministros demitidos por outros ministros, o grupo Carlyle e companhia a passearem-se por Portugal, Euro à porta, desemprego a competir com o de Espanha, déficit dependende de rendimentos extraordinários, the whole shabang! Não é preciso fazer a lista, está aos olhos de cada um.
E muita gente, como eu, embruída no teatro que foi o casamento real espanhol e obrigado a consumí-lo às colheradas durante grande parte do fim de semana, reteu apenas frases-chave do discurso de Durão:
1. a culpa de atentados é do PCP
2. o desemprego não é um problema, mas sim um desafio
3. Sousa Franco não tem autoridade moral para se encabeçar uma lista às europeias porque foi ele que pôs o país em G-String.
E, com base nisto, muita gente acabou de dirigir o seu voto. A nível político e de assessoria de imprensa, foi brilhante! Porco, mas brilhante! Incorrecto, mas brilhante! Brilhante no sentido criminoso da coisa...
P.S.: só tenho 3 apontamentos em relação às anteriores frases
a) Huh ?
b) Não comer é um desafio ? Não alimentar uma família é realmente um desafio...
c) Autoridade moral - algo que se ganha quando se salta do MES para a única social democracia NO MUNDO que é um partido de direita...
Segunda-feira, Maio 24, 2004
Lição da Semana
(Ler com o ar sentido, ternurento e respeitoso que a ocasião merece…)
Parece que J-1 está apaixonado. Depois de conhecer a bastante envolvente e levemente mais jovem Aurora, ele mudou de cor e seus oito braços enrolaram-se com os dela. Então, os dois retiraram-se para um canto escuro para se conhecerem melhor.
O amor quase que lhe passou ao lado, J-1 está chegando ao fim da linha-. J-1 está num período de declínio.
"Ele já não é forte com costumava ser."
Com tão pouco tempo de sobra, J-1 não podia deixar a doce Aurora fugir por entre seus oito braços.
Mas foi Aurora quem tomou a iniciativa, esticando-se para se encostar a J-1 antes de se retirar para seu canto. Mas logo a seguir J-1 foi atrás dela.
Estiveram os dois agarrados à parte de trás do tanque e permaneceram enrolados por aproximadamente oito horas.
Quando se separam J-1 estava com boas cores. Aurora, se não fosse “Polva” e pudesse sorrir, de certeza que o faria…
Em suma: ATÉ OS BICHINHOS GOSTAM
Domingo, Maio 23, 2004
Clãs...
Não, desenganem-se os revivalistas hollywodescos... não vamos falar da saga dos Maclaud... Vamos sim entrar numa reflexão mais profunda sobre o universo dessas famílias que desafiam as leis da física ao serem mais agregadas que muitas matérias que por aí andam no Universo.
Hoje vamos falar dessa instituição Portuguesa que são os Soares! Sabem aquele senhor gordo, que a geração mais nova, se habituou a tratar carinhosamente por bochechas? Aquele mesmo senhor que as mães utilizam como exemplo, quando os filhos são presos por delinquência juvenil, dizendo: “ não faz mal o Soares também teve preso e não é por isso que deixa de ser quem é!”...
Muitas mais seriam as imagens de marca deste senador da nação! Mas por aqui nos ficamos... (OBS: Senador vem da palavra latina senex –velho, que por acaso também está na origem da palavra senil!).
Bem mas continuando... Esta família, qual máfia, funciona segundo os cânones de agregação familiar da idade do ferro, em que face aos perigos exteriores, as famílias tendiam a agregar-se. Para aqueles, mais distraídos, mais loiros, ou simplesmente com um ligeiro atraso mental, eu passo a explicar com exemplos (que como irão ver são de baixa complexidade intelectual, sendo compreensíveis a todos)
EXEMPLOS: temos portanto o território do clã, ou seja Portugal ( atenção que o chefe do clã já havia renunciado, quando novo, a outras pocessões, e muito se orgulha ele disso), e temos também os ataques externos prepertrados por uma tribo rival, que com um novo chefe tribal, com o nome de guerra McPortas do forte de S. Julião da Barra, anda a abalar o clã... Este último lider é aquele que faz com que o clã Soares se torne ainda mais coeso, senão repare-se os estragos que ele já fez. Quando em anos idos, em “mangas de camisa” dizia convictamente EU FICO, fez estremecer a já desgastada massa encefálica do velho lider do clã Soares, que temia pelo seu petiz. Mais tarde depois de muitos ataques, lá conseguiu com um golpe baixo, cortar um dos braços do polvo Soares, que se agarrava com todas as suas ventosas à Cruz, vermelha bem entendido... Façamos aqui um parêntesis! Aqui para mim creio que este ataque, à Maria se deveu a duas coisas: o srº do clã rival precisava de aumentar a sua capacidade bélica e assim quer ficar com os tropas todos só para ele, ou então não aprova o passado “artístico” da Maria (OBS: o leitor que está a tirar segundas intenções da leitura do “artístico”, deixe-me dizer-lhe que não vá por aí, ou em palavras que também abalam o clã Soares “olhe que não, olhe que não!”, o artístico serve apenas para recordar o já muito esquecido, e cá para mim apagado, passado de actriz da Maria...).
Continuando...
Alegremente começo a aperceber-me que o clã Soares começa a ruir! A força do velho líder não é a mesma, o carisma do “piqueno” Soares é e sempre foi uma miragem, aliás se não fosse o celebre acidente de avião que teve lá para os lados de África do Sul, quando andava a fazer pela vida (OBS: agora sim, o que escrevemos presta-se a segundas leituras, numa alusão directa ao tráfico de diamantes... Eu não sei de nada, apenas ouvi dizer!), ninguem saberia quem ele era. Mas ainda bem que o senhor se safou, e também se safou mais tarde- é que eu adoro azulejos!
Bem como o texto já vai longo, e as lutas renhidas entre o clã e os seus inimigos ainda estão para durar, ficamos por aqui podendo garantir ao leitor que voltaremos com mais aventuras do... Clãããããããããããããããããã SOOOOOOOOOOARES!
Sábado, Maio 22, 2004
Em dia de boda, e enquanto os media se empanturram com sua alteza a tortilha real, o blog Inoportunus promove um olhar diferente sobre a alternativa sempre sofredora do nosso Portugal. Assim sendo, hoje é dia de Senhor Sorridente:
Este sorrisso espontâneo, sincero e rico em gengivas-pré-escorbuto pertence ao ilustre vendedor da revista Cais que costuma parar pelo metro do marquês do Pombal. Calculo que seja dos mais bem sucedidos empreendedores no prolífico ramo da imprensa piedosa, caridosa e indulgente. Não obstante as dificuldades que decerto tem de enfrentar no seu dia-a-dia, Sr. Sorridente (vamos chamar-lhe assim, não se lhe conhece um nome de baptismo) ostenta sempre um rasgado sorriso. É impressionante a quantidade de dentes que se esconde por detrás daqueles lábios, dentes esses, todos eles, impecavelmente brancos. É enternecedora a dedicação com que se dedica ao seu ofício, não me consigo lembrar de ninguém tão profissional que vista amarelo todos os dias.
Sexta-feira, Maio 21, 2004
De cores e outros demónios
Chamava-se Edgar. Era preto. Muito preto, daqueles a fugir para o azul. Mesmo assim, era uma pessoa “de cor”.
Ele costumava perguntar: “É assim tão difícil de definir a minha cor? Eh pá, eu entendo que quando está sol não dê para perceber muito bem se é preto ou azul, mas no resto dos dias é fácil, é preto!
Tinha um carro vermelho. Às vezes com o sol, de tão gasta que estava a pintura, parecia cor-de-rosa. Mas ninguém duvidava que era vermelho! Porquê? Era uma pessoa “de cor” mas num carro vermelho! E porque não num carro “de cor”?!
- Um Opel Corsa GTI, vermelho, conduzido por um indivíduo “de cor”.
Esperem, de cor não era o único qualificativo da pessoa que conduzia o automóvel.
- Um Opel Corsa GTI, vermelho, conduzido por um indivíduo africano.
Africano?! A nossa personagem bem que olhava para o B.I.. Dava-lhe voltas e mais voltas. Até chegou a pô-lo à frente dum candeeiro para ver se tinha alguma marca de água, mas não, não aparecia nada que tivesse a ver com África.
Nº: 12190250 8
EMISSÃO: 19/05/1999 * Lisboa
NOME: Edgar Manuel da Costa Andrade
PAIS: José Manuel Fonseca da Silva Andrade * Maria da Conceição Figueiredo da Costa
NATURALIDADE: São Sebastião da Pedreira * Lisboa
RESIDÊNCIA: Telheiras * Lisboa
DATA DE NASCIMENTO: 15/03/1979
ESTADO CIVIL: SOL.
ALTURA: 1,85
VALIDADE: 19/02/2005
Chamava-se Maria. Era branca, muito branca. Daquelas quase verde azuladas dada a transparência da sua pele que deixava ver as veias. Mas não era “de cor”. Era uma pessoa, que em caso de adjectivação ninguém duvidava: branca.
Tinha um Opel Corsa cor-de-rosa. Há cerca de 3 meses tinham-lhe batido na porta. Como o mecânico não tinha tinta cor-de-rosa (vá-se lá saber porquê) tinha-lhe pintado a porta de vermelho (até achou que ela não ia notar).
Era: - Uma rapariga num Opel Corsa rosa.
Era alta e loira: - Era uma rapariga “Nórdica” num Opel Corsa rosa
- Nórdica?! Eu nasci em Angola, os meus pais são do Mussulo! ?Sim, tenho uma bisavó em Marrocos, será que é a isso que se referem?!
Um dia, um homem e uma mulher encontraram-se. Olharam-se.
Ela disse:
- Gosto de ti Edgar.
Ele Respondeu:
- Vem comigo Maria.
O amor não tem cor.
Quinta-feira, Maio 20, 2004
A pedido do nosso caro Estivador d'Alcântara, venho por este meio justificar a ausência do seu habitual comentário de 4ª feira. Ao que parece, o Estivador ficou retido no cais de desembarque toda o dia e noite em questão, impossibilitando-o assim de cumprir com o seu dever cívico. Desde já, apresento as suas desculpas pelo facto, ficando, então, adiado para o próximo domingo o referido comentário.
Bem haja.
Parábola do amor de pais
Seguindo o mote do meu cher ami Hoka Hei, decido retomar o tema perdido da semana passada. Falo não dos vários amores (muito bem apresentados no post anterior) mas de um em particular, sob um ponto de vista um bocado diferente.
O casal de estorninhos-d’asa-ruiva prepara, com extremo cuidado e afinco, um ninho com uma mistura de ervas diferentes, num ramo abrigado do teixo. Quando acabam, ficam com um abrigo confortável e seguro para acolher a nova vida que virá. Umas semanas depois, um pequeno ovo esbranquiçado foi posto pela fêmea, e dentro dele concentram-se as infinitas possibilidades em esboço de um ser. A fêmea passa agora a maior parte do tempo dentro do ninho, debruçada sobre a frágil preciosidade, mantendo-a aquecida e protegida. O macho caça pequenos insectos e vermes que partilha com companheira.
Quando o ovo finalmente eclode, emerge uma pequena criatura, ainda sem penas, infinitamente nua, infinitamente frágil. Nos meses que se seguem, o pequeno animal irá crescer, alimentado pela mãe e pelo pai que agora passam quase todo o tempo a caças para o alimentar. A pequena boca é exigente, e não cala os seus protestos até saciada. Os pais não têm mãos a medir, e satisfazem todos os desejos da cria. Esta cresce em pouco tempo, e cobre-se de luzidias penas cor de fogo. Cedo ultrapassará em tamanho os pais.
Contudo, eventualmente a constituição do jovem estorninho torna-se um problema. O ninho é agora demasiado pequeno para ele, ameaçando ceder a qualquer momento face ao seu peso. Os progenitores sabem-no, e a própria cria sabe-o, terá que enfrentar o mundo exterior em breve. Terá que voar, caçar, acasalar, criar ninho, dar vida a uma cria, alimentá-la, envelhecer, morrer.
O estorninho aproxima-se da borda do ninho e lança-se no vazio. Mas está demasiado pesado e as suas asas, nunca exercitadas, são demasiado fracas para o manter em voo. E precipita-se de encontro ao solo.
Terça-feira, Maio 18, 2004
Do Amor e outros Demónios
A temática de semana passada era o Amor. Como ninguém deu conta disso, aproveito para dar o meu comentário fora do prazo de validade, que há coisas na vida em que devemos arriscar. Uma delas é o Totoloto e a outra nem por isso. Continuando. Perguntando-me o que é isso do Amor, reparo, esgazeado (eu bem te disse, papá, que havia de chegar o dia em que poderia usar esta palavra sem estar a falar do intestino grosso), que esta é uma pergunta inútil. Porquê? Porque o Sr.Einstein decidiu acabar com a Verdade ao dizer que tudo era pessoal e intransmissível. No entanto, aqui nesta tasca, enquanto houver Monte Velho – Vinho Regional Alentejano de 2001, nada me calará. Por isso, adiante! O que é, para mim, o amor?… Ora, reflectindo sobremaneira no assunto, esta é uma daquelas perguntas com resposta-a-la-psicólogo: repete-se a pergunta e cobra-se ao final. A questão é: o que é para si o amor? Antes de mais, é algo que se define por comparação (como tudo). O meu Amor é diferente do teu porque o teu é Vermelho e o meu, por consequência, será verde. Mas isto não tem nada a ver com o tema e já estou a divagar. Definir Amor? Esqueçam. Trabalhem vocês. Eu vou é falar de Amores! Não, não estou a falar em bigamia, nem na Ilha e muito menos naquela festa no 12º ano em casa daquela miúda em que, no final, fomos todos para o balneário e… Em frente.
Podemos ou não amar mais do que uma pessoa? Diz a boa educação de mãos dadas com a tradição que não. Mas, na verdade, eu quero é que ambas vão ter meninos para a borda da estrada (obrigado, Filipa) porque eu não concordo. Uma pessoa ama outra (porque por estas bandas somos todos sexualmente liberais). Isso é o Amor no seu maior esplendor, certo? Agora, pensemos na família. Há alguém que não ame os pais (salvo raras excepções devidamente justificadas à Reitoria)? E alguém tem por intenção criar nova família com eles, procriar e viver com eles até ao fim da vida? O Amor pela nossa cara-metade não impede o que sentimos pelos membros da família e vice-versa. Noutro plano, mais distinto, totalmente vertical, está o amor vertical. Quem segue uma religião (no sentido real e não no sentido de “eu tenho uma vela e vou pra Fátima porque até fica giro na TV”), independentemente da sua crença ou livro de culto, ama a Ele/a e ao próximo. No entanto, em nada este amor me parece semelhante aos dois descritos acima, não é verdade? Por fim, aquele que será o lado mais socialmente incompreensível do Amor, mas que, na minha humilde opinião, faz todo o sentido: os amigos/as. O livro de 1971 “Já sou uma mulherzinha” avisa que pessoas de sexos diferentes não devem tentar construir relações de amizade porque ao fim do dia alguém ficará prenha. Permito-me discordar. Esse compêndio ignora a sexualidade tal e qual a conhecemos no século XXI, para além de atentar contra a inteligência de todo o indivíduo ao afirmar que a animalidade eternamente se superiorizará à intenção. A grande discórdia prende-se com a (minha) expressão: eu amo os meus amigos/as. Obviamente, não poderemos subentender nenhuma das funcionalidades dos anteriores amores aqui descritos, por motivos que me escuso a enunciar. Não há sexualidade, não há relação de sangue, não há fé divina. Então, sobre que areia se constrói este castelo? Simples: tempo. Quando era petiz e me diziam que ter 50 amigos (como então afirmava) era, de certo modo, promíscuo, não o entendi. Agora que o compreendo e vejo o leque reduzido a uma mão, clarifica-se-me a grandiosidade desta verdade. Eu amo os meus amigos/as porque, pelo tempo, criou-se uma profundidade de conhecimento que me permite, com um risco mais ou menos calculado, colocar a mão no fogo por cada um deles. Uma verdade científica: tempo é conhecimento, conhecimento é controlo. E daí retiro a previsão (quase) certa que em situação X, pessoa Y irá agira de forma Z. E a beleza com que se observa este triângulo, não a consigo descrever de outro modo que não o Amor. Esta será uma realidade um pouco complicada de entender se não a quisermos entender. Mas é simples. À partida, cara-metade sexualizada, amigos assexuados. São posições voláteis, é certo. No entanto, se estivermos minimamente (e, repito, minimamente) confiantes de que acertamos nas classificações à primeira, a intuição deverá ir de encontro ao resultado final.
Isto tudo para concluir que o Amor é divisível. Redutível. Somável. Multiplicável. O Amor é como o Natal: quando um Homem quiser, onde quiser e com quem quiser, desde que haja a devida explicação para o seu cônjuge para a presença daquelas ucranianas no cenário…
Para finalizar em beleza e porque não vos quero deixar em dúvida, vou citar as palavras de alguém especial, lá do norte, para definir o Amor. A Porto Editora.
Amor, s. m. sentimento que nos impele para o objecto dos nossos desejos; objecto da nossa afeição; paixão, afecto; inclinação; - captativo ou possessivo: amor que procura monopolizar o outro para si; - conjugal: é o abraço radical pelo qual uma pessoa une ao seu destino o ser de outra pessoa; - oblativo: o que se dedica a outrem; - por – de: por cause de; em atenção a; por – de Deus: por caridade; ter – à pele: não arriscar a vida; ser prudente.
Tenho dito.
P.S.: 25 Jesus said, "Love your friends like your own soul, protect them like the pupil of your eye." In Gospel of St.Thomas (possível evangelho não incluído na Bíblia encontrado no deserto do Egipto em 1945; por minimizar o papel de uma instituição mediadora como a Igreja, foi considerado herético pelo Vaticano)
Segunda-feira, Maio 17, 2004
Domingo, Maio 16, 2004
O artigo do nosso convidado de hoje é um testemunho de uma realidade histórica e social, que nem por isso deixa de ser actual, que consideramos de extrema importância.
Como todos os textos publicados neste blog, é um ponto de vista pessoal - não andamos à procura de verdades - e sem qualquer objectivo que não o de que cada um faça com ele o que lhe apetecer, intelectualmente falando, claro.
Agradecemos ao autor a colaboração e a frontalidade com que nos mostra os seus factos, e o seu ponto de vista, que são sem dúvida o reflexo de uma vivência na primeira pessoa de algo que nos diz respeito a todos.
Aquí vai, esperamos que gostem, ou não.
Coimbra, anos 70 – Os acratas
“Nós somos aqueles contra quem os nossos pais nos preveniram»
1. Antes de 68
«Cours vite, camarade, le vieux monde est derrière toi»
O fascismo era um nojo. Os fascistas eram (e são!) repugnantes, estúpidos, incultos, beatos, salazarentos. A sociedade (se é que se tratava de uma sociedade!) Portuguesa era cinzenta, sem tonalidades. Mesmo o terror era cinzento.
O fascismo, com o cortejo de cúmplices e de braço dado com a omnipresente igreja, fazia estiolar todas as formas de vida. Era proibido ser, sentir, falar, amar, gostar, viver. Era muito proibido...cantar. Em 1968 em Braga, a pútrida, a censura proibia para um espectáculo de estudantes liceais “...José Afonso, Correia de Oliveira...e etc.”!!!
Os padres mandavam e recebiam a dízima, os polícias e pides prendiam, batiam, torturavam, exilavam e matavam, os seus cúmplices denunciavam, a burguesia confessava-se e ia a missa, fazendo-se de compungida.
Nas colónias, “os pretos” (esses calaceiros malcheirosos no dizer das consciências muito católicas dos colonialistas portugas!) trabalhavam sob o chicote, em portugal os míseros camponeses andavam descalços...e iam, como hoje, a fátima...
Instalados no poder totalitário os porcos que hoje se dizem democratas esbulhavam o país; salazar, o porco-mor, punheteava-se piedosamente sob o olhar atento e curioso do cerejeira e da senhora maria, vindo-se com as descrições das mortes no Tarrafal. Os seus ministros rebolavam-se de gozo abjecto. Hoje ensinam história para parvos (!!...) na televisão, são ministros do ps ou reputados conselheiros!!!
Grande chatice! Os “terroristas” começaram, em Angola, Moçambique e Guiné, a dar que fazer aos nossos “bravos rapazes”. Os “bravos rapazes” que hoje, depois de algumas comissões a coleccionar orelhas e testículos de “terroristas”, querem ser ressarcidos do seu passado sofrimento, que lhes provocou stress de guerra pós-traumático!!!)!
E, na pátria, alguns atrevidos começaram a questionar em actos não controláveis este quadro idílico!
O poder até já estava habituado a lidar com a oposicrática (umas porraditas num doutor e a coisa acalmava). Os mais combativos, os verdadeiros revolucionários, eram mortos na pide ou no Tarrafal.
Mas agora com estas modernices vindas do estrangeiro...
De facto, os jovens Portugueses estavam-se a começar a cagar para as oposições clássicas; e então depois de Maio de 68...
Em Coimbra, a coisa começou mais a sério em 69 – a célebre crise. Ainda controlada em certa medida pelo PC, via Barros Moura (“Intelligence Barros Moura”, IBM, carinhosamente modificado por alguns menos respeitadores para “Ibo”, a usar-se em frases como “...hoje, por acaso, apetecia-me comer um Ibo...”), rapidamente os estudantes – alguns, claro, poucos...a maioria estudava – descambaram para críticas mais acutilantes do capital. E, ao som dos Doors (“We want the world and we want it.....NOW!!!”), começou a dança!
2. Entre 68 e 74
“Vivre sans temps morts, jouir sans entraves”
Em 70 cria-se em Coimbra o Centro de Estudos Sociais e Económicos (CESE). Reunia primitivos trotskistas, maoistas e algumas pessoas. Foi pouco, mas foi alguma coisa. Os trotskistas e maoistas rapidamente se tornaram insuportáveis e o clube desfez-se. Ainda bem.
Entre alguns dos sobrantes, as ideias de Maio 68 – as ideias dos situacionistas e enragés – começavam a ser conhecidas. As malfeitorias de Trotsky e Lenine – assassinos dos revolucionários de Kronstadt e da Ucrânia (os ditos Makhnovistas) e preparadores conscientes do advento do Pai José – tornaram-se notórias.
Paralelamente, as ideias e práticas dos antigos Anarquistas são retomadas. As histórias exemplares de Buenaventura Durruti e Francisco Ascaso são conhecidas. Bonnot e Raymond-la-Science fazem-nos vibrar. Cantamos a “Ravachole”. Discutimos a Comuna de Paris. Violentamente, às vezes. Na Praça da República, alguns estudantes ligados ao (gemebundo...) PC são ameaçados: “...se se atrevem a dizer mal da Comuna, levam porrada...”.
São publicados panfletos incendiários. Contra o poder fascista, mas também contra os totalitarismos de outras cores (edita-se, por exemplo, “O Ponto de Explosão da ideologia na china”; um texto de comemoração da Comuna de Paris termina dizendo: “...e a vós, filhos da puta que de há muito conhecemos, não vos daremos sequer tempo para um arroto – precisamos das vossas tripas para saltar à corda!”).
A crítica em actos da propriedade(a que os burgueses chamam, sacristamente, roubo) torna-se comum. Os estudantes deixam de roubar galinhas e passam a roubar tudo!
Claro está que a obsoleta e ridícula parafernália estudantil desaparecera totalmente – tínhamos lá tempo ou disposição para momices como capas e batinas, praxes, serenatas ou tricanas!
- “A função social dos estudantes é apanhar porrada” – dizia o Karpa (alto, forte, cabelo e barbas negras, uma das pessoas com mais coragem física que conheci, já falecido) em 10 de Maio de 1970. Na véspera, tínhamo-nos divertido intensamente – mandámos 15 polícias para o Hospital, um deles com perfuração de pleura. Coimbra estava em luta! Os estudantes tinham fugido de uma carga policial – mas trezentos ficaram! Enquanto que, sub-repticiamente o “herói” da crise de 69, Alberto Martins, pirava-se no seu carrito – pois se o rapaz tinha um futuro a garantir!
Outros, muitos, combateram. Com pedras contra pistolas. A estupidez e incompetência dos polícias a revelar-se, felizmente – só acertaram em um de nós! Ainda hoje vivo, apesar de ter ficado sem um rim e o baço.
Novidade nesse dia – o ataque organizado de uma unidade combatente a um carro da polícia. Eh, eh, bonito de se ver: primeiro pará-los, depois amassá-los.
Nas reuniões subsequentes, as propostas mais radicais – ocupar a Associação e só sairmos mortos, azeite a ferver para cima dos atacantes...até flechas incendiárias!
Sem deuses nem mestres, crescíamos. Pela primeira vez, vivia-se intensamente. Estávamo-nos nas tintas para o futuro (resposta de um estudante de medicina a um inquérito em que se perguntava o que pensava como futuro médico: “eu não sou um futuro médico!”).
Praticávamos o fim da discriminação sexual. Até nas repúblicas – antros de estudantes pouco avessos a verdadeiras revoluções. Primeiro os Milionários, depois o Trunfo, logo a seguir os Galifões – que passaram rapidamente a Comuna – viram as mulheres assumir a sua posição igualitária.
Bebíamos e usávamos drogas, claro – extraíamos o máximo de uma vida que não esperávamos duradoura. E expandíamos os nossos cérebros. Não tínhamos planos para o futuro – o futuro era a revolução. Que era inelutável e estava em curso!
Não suportávamos mais os discursos castradores e moralistas de curas, pides ou militantes!
Mas organizávamo-nos! A teoria dos Situacionistas e a prática dos Tupamaros! Desenhava-se até uma base territorial – a alta de Coimbra, e um quartel-general: a Comuna dos Galifões.
Organização restrita, solidariedade total, expulsão imediata dos titubeantes, ausência de violência entre os membros da unidade combatente, disciplina livremente assumida, decisão por consenso rápido, compromisso de dissolução no momento revolucionário. Tacticamente, pequenos grupos (usualmente 4 elementos), dirigidos para a acção, ignorantes da actividade dos outros. Em caso de prisão...aguentar 24 horas pelo menos, berrar a identidade na altura da prisão.
A par e integrando o usufruir da vida realmente vivida: a luta política. É o tempo das distribuições de panfletos, das pichagens (a melhor – em letras garrafais, nos comboios, levando a todo o país a consigna que, embora limitada, era a que mais incomodava o poder colonialista: “Abaixo a guerra colonial!”), das manifestações relâmpago, do apoio aos camaradas presos. E o gozo que nos dava cada uma das nossas acções – ou as acções das Brigadas Revolucionárias, que admirávamos!
É o tempo também das ameaças de morte pelos pides, da agressão selvática pela polícia, da prisão de camaradas e amigos. É o tempo também, tenho que o dizer, do medo: não medo paralisante, mas constante. Não tanto medo da prisão, ou da morte (sabíamos que era uma possibilidade); nem sequer, talvez, o medo da tortura. Temíamos, acima de tudo, não ser capazes de aguentar. E, para alguns de nós, este temor já vinha desde os 16 ou 17 anos...
3. Do 25 de Abril ao 25 de Novembro
«Nous voici quelques uns, épris du plaisir d’aimer sans réserve, assez passionnément pour offrir à l’amour le lit sumptueux d’une révolution»
Com o 25 de Abril (em Coimbra, só a 26), a festa.
De ver que em Coimbra não foi o heróico Salgueiro Maia que veio com os seus tanques para nos salvar; fomos nós que fomos buscar um futuro heróico capitão ao quartel. Que ele não estava lá com muita vontade, foi preciso provocá-lo: “então estamos nós a vigiar os pides e a gnr, e os filhos da puta a queimar documentos e vocês, cheios de G3, não se mexem? E em Lisboa já acabou o fascismo!!!”
Finalmente lá se decidiram. Mistério! Um dos nossos carros, com cinco pessoas (entre os quais o Karpa e o Vítor, já falecidos), tinha desaparecido.
Esclarecimento quando invadimos a sede da pide – estavam lá todos!
“- Como é que entraram antes de nós?
– Fomos presos!”.
De facto! No dia 25 de Abril de 1974, às 11.30 da manhã, cinco pessoas dos Galifões, a fazer pichagens revolucionárias, foram presos pela pide! “- Finalmente conseguimos apanhá-los!” dizia o filho da puta do pide horácio. Tarde piaste! No dia seguinte, fazíamos a festa à luz da fogueira dos carros dos pides incendiados!
E a festa continuou!
O grupo crescia – revolucionários de todo o Mundo visitavam Coimbra...e ficavam na Comuna dos Galifões!
Os revolucionários organizavam-se. Mobilizavam-se os estudantes radicais – a célebre Lista B, de acratas, propunha o fim da Associação Académica, a ocupação das instalações por revolucionários; publicava “A miséria no meio estudantil”. Distribuía panfletos que terminavam com a frase “puta que pariu os estudantes!”
Albergávamos revolucionários de todas as proveniências sociais e geográficas.
Ocupávamos casas; participávamos em Comissões de Moradores; colaborávamos com unidades cooperativas de produção em terras ocupadas no Alentejo que fugiam à influência nefasta do PC; apoiávamos unidades fabris em autogestão.
Distribuíamos imprensa revolucionária.
Dávamos atenção à auto-defesa. Os grupos vindos de antes do 25 de Abril continuavam operacionais; aproveitávamos a colaboração de militares radicais para fazer treino militar; desenhou-se até o plano de defesa da Sé Velha!
Participámos activamente em todos os momentos críticos da revolução. Em 28 de Setembro, coordenámos barricadas; em 11 de Março, ocupávamos (a pedido de militares de extrema-esquerda) o aeródromo de Cernache. Mais tarde, seria ocupada a sede do CDS...
Lutávamos sempre, em todas as trincheiras; colaborávamos nas campanhas do Otelo; apoiávamos grupos militares radicais – nomeadamente os SUV (Soldados Unidos Vencerão). Célebre a entrevista que alguns dos membros dos SUV deram a uma televisão nórdica – na Comuna dos Galifões, encapuçados e com panos pretos a ocultar restos da parafernália estudantil ainda sobreviventes...
Não descurávamos a elaboração teórica e o planeamento estratégico. Estávamos conscientes da fragilidade da revolução Portuguesa, do perigo do acesso ao poder pelos totalitaristas. Desenvolvíamos uma crítica cerrada às organizações pseudo-revolucionárias que mais não queriam que partilhar umas migalhas de poder (ainda hoje o querem – veja-se o bloco de esquerda...).
O nosso inimigo era e é o capital em todas as suas formas, o poder em todas as suas manifestações. Jogámos duramente, sabendo dos riscos que corríamos, e gozando intensamente cada momento.
A revolução foi bloqueada, mas não por nossa causa!!!
4. Depois do 25 de Novembro de 75
“On a bien fusillé Varlin,
Flourens, Duval, Millière,
Ferré, Rigault, Toni Moillin,
Gavé le cimetière…
On croyait lui couper les bras
Et lui vider l’aorte…
Tout cela n’empêche pas, Nicolas,
Que la Commune n’est pas morte ! »
Fomos muitos para Lisboa, nesse dia. Sabíamos que a Revolução estava em jogo, e que não tínhamos grandes possibilidades de ganhar...mas se ganhássemos, podíamos mudar o Mundo!
Parámos uns minutos a 20 km de Lisboa. Éramos uma unidade combatente de 25 pessoas. Outros tinham ficado a defender a casa, em Coimbra. Outros já estavam em Lisboa. Tivéramos informação de mandatos de captura para nove de nós.
Partilhámos uma garrafa de aguardente – podia ser a última vez que nos víamos. E tínhamos previsto a possibilidade de nos internarmos no Alentejo e passar à guerrilha, se fosse preciso.
Não foi preciso. A montanha pariu um rato. Lisboa, a Vermelha, abria as pernas a meia dúzia de comandos de pelos no peito. Os heróis militares do 25 de Abril borravam-se. Alguns, mais conscientes, piravam-se e traziam armas. Diniz de Almeida, nobre, entregava-se ao ver que ninguém tinha tomates para a luta.
E nós? Pregámos umas chapadas a uns paraquedistas em lágrimas, arranjávamos algum equipamento e voltávamos para a luta!
A luta continuou. Nas suas múltiplas formas. Participando em lutas estudantis, e nas outras. Impedindo a reacção, abrindo novas frentes. Ecologistas de esquerda e novos anarquistas integraram as nossas fileiras. Continuávamos a viver de forma real, recusando os compromissos bacocos dos partidos e os atractivos do capital.
Alguns de nós pegaram em armas, mais vezes. Alguns morreram com elas na mão.
Quando chegaram os anos de chumbo, nos oitentas, alguns traíram. Dos nossos, muito poucos. Quando morrerem, “les echaremos tierra en la boca”.
Os outros, muitos e bons, estão por aí. Dissolveram-se no momento revolucionário, como pressupunha a teoria. Mas organizam-se quando necessário. Os verdadeiros revolucionários de qualquer idade ou época reconhecê-los-ão com facilidade. Não contem é connosco para partidos ou projectos de poder.
Somos acratas!
F. Carmichael
Sábado, Maio 15, 2004
Mefistófoles ficaria orgulhoso
Por motivos que agora não interessa falar e dos quais eu não me orgulho muito, por vezes vejo-me forçado a ir estudar para a biblioteca da Universidade Católica. O espaço é, ao bom costume português, mal organizado e caótico. Parcamente iluminado e bafiento segundo os costumes seculares das bibliotecas europeias. Os bibliotecários possuem, todos eles, a espinha dorsal de um verme e a massa encefálica de um ovídeo, respondendo a todas as questões formuladas com um arrastado, "Não sei..." , segundo a tradição milenar dos funcionários públicos do nossa país.
Apesar de todos os defeitos, a biblioteca João Paulo II (tudo muito pio, muito pio, tudo de mini-saia de louvar a deus e tentar engatar o capelão) oferece alguns recantos de sossego e meditação. Ideais para qualquer hipertenso alapar as nalgas e disfrutar de bons pedaços de literatura e conhecimento. Um desses recantos que eu frequento com irregularidade é o superlotado flanco ao lado dos livros de teologia. Ora como é sabido, onde se estuda teologia há menos ácaros, as pessoas são mais meigas, silenciosas e possuem um encantador sotaque das beiras - mesmo aqueles que são dos PALOP. De maneira a conseguir uma mesa onde me possa dedicar seriamente ao estudo, dou um salto à prateleira onde repousam os livros cujos titulos começam por "S". Uma prateleira não muito visitada, cheia de pó e pecado. Sem grande precisão, recolho meia dúzia de livros onde na capa se lê em letras garrafais qualquer coisa como: "Satanás", "Satanás e Eu", "Satanás para principiantes", "Quem mexeu no meu Satanás", etc... Com um desses livros aberto, uma pilha sebenta ao lado, sentado numa cadeira-sofá verde-escarra começo a ler baixinho, primeiro com voz grossa. Passado uns instantes, altero para voz fina e falo mais alto alterando todas as frases para um latim macarrónico. Mais tarde, começo a balançar-me para trás e para a frente, para trás e para a frente. Por esta altura já captei a atenção de umas quantas freiras míopes ou um presbítero calvo, e contínuo. Viro as páginas muito depressa e faço aquelas coisas com os olhos que nos ensinam nos campos de férias, que diz que nos podem deixar vesgos - não acreditem, é tudo mentira.
De seguida, fecho os olhos e deixo escorrer um fino fio de baba pela boca. Fico assim, imóvel, durante alguns segundos. Quando abro os olhos, metade das mesas vagou e o padre careca está agora a segurar violentamente um pequeno frasco branco e uma cruz. Os restantes têm a respiração acelerada e fitam o céu, com as palmas das mãos unidas. Levo um dos livros comigo, pego na mochila e sento-me confortavelmente a estudar. Nunca ninguém me incomoda.
Sexta-feira, Maio 14, 2004
Não quero voltar a vêr isto
Peço desculpa pelas imagens mas isto é um pequeno bocadinho do que se passa no mundo. Sei que já estamos fartos de as ver. O enjoo que provocam é inevitável, mas há por aí quem não seja da mesma opinião. Acho que já é altura de sabermos que ISTO É UMA GUERRA. Sempre foi assim, sempre será. Por isso é importante que ao debater a eventualidade de qualquer guerra não nos deixemos enganar por bombardeamentos cirúrgicos, danos colaterais e etecéteraetais. Não tínhamos visto já imagens de Guantánamo? Por que é que isto nos surpreende e nos escandaliza? Temos que acabar com as guerras de uma vez por todas! Porra!
Transporte de prisioneiros para a base militar norte americana em Guantánamo
Prisão de Abu Ghurayb
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Declaração Universal dos Direitos Humanos
Preâmbulo
Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo;
Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos do Homen conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração do Homem;
Considerando que é essencial a proteção dos direitos do Homem através de um regime de direito, para que o Homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão;
Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações;
Considerando que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de novo, a sua fé nos direitos fundamentais do Homem, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declaram resolvidos a favorecer o progresso social e a instaurar melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla;
Considerando que os Estados membros se comprometeram a promover, em cooperação com a Organização das Nações Unidas, o respeito universal e efectivo dos direitos do Homem e das liberdades fundamentais;
Considerando que uma concepção comum destes direitos e liberdades é da mais alta importância para dar plena satisfação a tal compromisso:
A Assembléia Geral proclama a presente Declaração Universal
dos Direitos Humanos
como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações, a fim de que todos os indivíduos e todos os orgãos da sociedade, tendo-a constantemente no espírito, se esforcem, pelo ensino e pela educação, por desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medidas progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e a sua aplicação universais e efectivos tanto entre as populações dos próprios Estados membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição.
(…)
Quinta-feira, Maio 13, 2004
CALAMUS
Perdoem-me aqueles que não estiverem muito à vontade com a língua inglesa, mas este blog quer-se todo intelectual e pretencioso, não?
A verdade é que não estou com inspiração nem paciência para dissertar aqui sobre a situação económica nacional, por isso recorri à técnica de escrita mais usada por colunistas (neste caso, bloguista, se me permito chamar-me isso) desde que há memória. Falo, pois claro, da citação de um autor famoso (de qualquer modo, parece que não sou o único esta semana).
In Paths Untrodden
In paths untrodden,
In the growth by margins of pond-waters,
Escaped from the life that exhibits itself,
From all the standards hitherto publish'd, from the pleasures, profits, conformitites,
Which too long I was offering to feed my soul,
Clear to me now standards not yet publish'd, clear to me that my soul,
That the soul of the man I speak for rejoices in comrades,
Here by myself away from the clank of the world,
Tallying and talk'd to here by tongues aromatic,
No longer abash'd, (for in this secluded spot I can respond as I would not dare elsewhere,)
Strong upon me the life that does no exhibit itself, yet contains all the rest,
Resolv'd to sing no songs to-day but those of manly attachment,
Projecting them along that substancial life,
Bequeating hence types of athletic love,
Afternoon this delicious Ninth-month in my forty-first year,
I proceed for all who are or have been young men,
To tell the secret of my nights and days,
To celebrate the need of comrades.
Walt Whitman, in Leaves of Grass
Quarta-feira, Maio 12, 2004
Foste tu que pediste Manel...
Não sei como começar! “Caro Manuel”? Ou simplesmente “Manel”?
Bem, vou optar por me dirigir a ti desta forma informal que decerto não irás levar a mal.
Escrevo-te esta carta para te dizer que de entre os muitos ídolos que tenho, tu és um dos que maior cotação tem na minha tabela. Sim pá ( contigo posso dizer pá, não posso?), tu (qual confessor) que queres saber o que vai na alma da velha nação portuguesa, dando-lhe novo folgo e alento com esta “Nova Democracia”; Sim pá! Um gajo que quando se chateia, quando é traido por um aperto de mão ( eu sei que tu sabes que eu sei, aquilo que tu sabes...), não desiste, desaparece e quando volta faz o seu próprio partido... É isto pá, é isto que eu gosto em ti Manel: seres um homem sempre preocupado com o país, que emprende essa terrível batalha ideológica batendo-se pela sua ideologia... “Assim se vê...” a tua força! Lembras-te do Freitas? Esse também saiu, e o que fez? Pois é Manel, não fez nada. Agora tu… Todo um mundo vos separa! Tu saiste e quiseste manter o tacho, ou melhor os teus ideais, e para ti não houve limites, e eu sei que te deve dar trabalho, convenceres a tua mãe, tios, primas, a Dona Alzira do 3º esquerdo e todos aqueles amigos que escaparam aos teus pedidos de filiação no PP, a irem contigo, expalharem a boa-“Nova Democracia”.
Manel, mas deixa-me dizer-te que eu ando preocupado contigo. Não sei se percebeste o que te espera quando pedes aos portugueses para te “dizerem” os seus problemas.
Não sei (e olha que te tenho em boa conta) se conseguirás aguentar tamanha pressão e exigências, nomeadamente no que diz respeito a problemas macroeconómicos ( relativos a toda a região de Rãs), ou às relações internacionais “quentes” em Rio de Onor, ou até mesmo as pretenções de independência dessa região tão vital para esta vasta nação portuguesa, que é Barrancos.
Sim Manel?!?! Oh Manel, claro que estou a brincar!
Sabes como eu sou, sempre a reinar! O que te vai acontecer, é que vais ter uma serie de @mails escritos por miudos de 13 anos, a serem ditados por essa massa tão mobilizada que são os idosos ( neste caso os respectivos avôs e avós!), que te vão entupir a caixa de mensagens com problemas que realmente interessam, e que devem ser debatidos no Parlamento Europeu. Não te quero assustar, mas não tarda muito vais receber um @mail escrito pelo Nelo(“Nelito, filho do Zé do talho” como é conhecido na terra dele) que conta a situação grave da avó que tem uma espandilose e que se queixa das más condições do Centro de Saúde de Mondim de Basto, ou até poderás mesmo vir a receber @mails de várias associações cívicas de relevo europeu, como por exemplo as “Mães de Bragança”( queres mais internacional que isto?!?!).
Muito mais há para dizer Manel, mas a carta já vai longa e eu sei que andas atarefado ( eu vi a tua agenda no site!), e não te quero tomar mais tempo, não vás tu chegar atrasado a uma entrevista na Rádio Cova da Beira, ou qualquer coisa do género. Um abraço! Aqui deixo um contributo para a tua luta: http://www.digaomanel.com/
Terça-feira, Maio 11, 2004
A Semana da Romaria
Ridendo Castigat Mores
Quando se fala em 13 de Maio, sinto um arrepio na espinha. Penso em três crianças desfavorecidas, sem electricidade, saneamento ou Playstation 2, de cajado na mão, a passearem pelos campos e a repousarem sob uma oliveira. E não é que, para espanto dos petizes, a árvore, em vez de dar fruto, dá hologramas? Eis que chega Nossa Senhora, directamente do Além, para comunicar a um trio de pré-púberes os segredos que iriam mudar a humanidade. Três pequenas verdades com as quais a Mãe de Cristo terá iluminado as crianças. Para Francisco, a iluminação não foi suficiente e o quadro desligou-se dois anos depois com uma simples gripe. Jacinta ainda aguentou mais um ano que o rapazola, mas rapidamente entrou em curto-circuito com uma tuberculose. O que nos deixa Lúcia. Lúcia, a carmelita, a sobrevivente, a mística detentora dos três segredos que iriam revolucionar todo o século XX! É preciso esperar 20 anos para que esta poderosa senhora se lembre que talvez seja altura de partilhar com o mundo o que a imagem lhe tinha dito. Finalmente, ela assim o fez. Em primeiro lugar, Maria disse a Lúcia que o Inferno é mau e arde (hmm é o único comentário que se me oferece fazer). De seguida, concluiu-se também que a redenção do mundo dependia única e exclusivamente da conversão da URSS. Conversão a? Cristianismo? Já está feito e nem por isso o mundo melhorou. No entanto, matreira que era e seguindo a linha de raciocínio de qualquer novela mexicana, Lúcia guarda para si e para um grupo restrito o terceiro segredo, pedindo (sob ordens da Virgem?) que este só fosse revelado em 1960. Sempre a par com as modernices (foram quantos anos mesmo que passaram até ao pedido de desculpas a Galileu?), a Igreja acede ao seu pedido e ainda lhe acrescenta outros 40 anos. Deste modo, numa concentração de gente comparável ao Rock In Rio, o Papa João Paulo II faz o anúncio em pleno jubileu, no ano 2000: a última das verdades prendia-se com uma visão de um papa e seus subalternos caminhando por entre uma trilha de cadáveres enquanto são baleados por soldados no cimo de uma montanha. Confusos? O Woytila e os seus seguidores espirofratálicos explicam: nada mais nada menos do que uma bela imagem simbólica do atentado que o dito cujo tinha sofrido em 1981 (é tão mais fácil entender as premonições depois delas acontecerem, né?). E pronto. Estes são os 3 segredos? Sentem-se mais leves? Mais capazes? Mais evoluídos? Parece-lhes que a vida ganhou um novo sentido agora que sabem das bisbilhotices entre a cachopa e a senhora da oliveira?
Desculpem o tom jocoso, mas o 13 de Maio provoca este efeito em mim. Ver dezenas de milhares de pessoas a auto-mutilarem-se (porque caminhar 400 quilómetros a pé não é mais que isso), a rastejarem, a chagarem os joelhos até ficarem em carne viva, não pode provocar outro efeito que não esse. Há quem refira a Beleza naquela concentração de Fé. Concentração de fé, porra? Estamos a falar de uma visão numa oliveira contada por três crianças. Hoje seria a televisão, há 90 anos foi, sem dúvida, a Virgem Maria. Existe, sim, uma concentração de fé, mas de bela não tem nada. Pessoas a sofrer não tem nada de belo. Porque até para se ter fé, é preciso não ser-se ignorante. Não se pode falar de fé e pensar que Cristo nasceu na costa oeste de Portugal. Não se pode falar de fé sem se saber que um dos princípios básicos da Bíblia é o de que Cristo sofre para que o resto do mundo não sofra e que sacramentos e promessas e intermediários e santinhas de algibeira e velas em forma de membros humanos e dor não são mais que produtos da imaginação (macabra) do Homem.
Quando vejo o 13 de Maio, seja ao vivo ou na TV, sinto pena de quem passa por Fátima, não por me achar detentor da verdade (porque assunto mais privado do que a fé não existe), mas por ter absoluta consciência que alguém nos primórdios da Igreja se deve estar a regozijar com o que de mais precioso têm as pessoas: a inocência (“e que tal pormos as pessoas a culpabilizarem-se para o resto da eternidade?", terão pensado). E disto se faz um produto. E nisto Fátima vende. E nisto o nosso Portugal continua a ser terceiro mundista, o tradicional país de brandos costumes, a quem os 3 F’s assentam cada bem melhor: Festúpidos, Fidiotas e Fatrasados.
Segunda-feira, Maio 10, 2004
No Caramulo há um ditado que diz: "Diz-me com que carro andas te direi que tipo de animal sexual és!"
Um importantíssimo e fiável estudo foi revelado na passada 6ª feira num conhecido semanário nacional.
Pois é “Tal&Qual” como vos digo: os condutores de BMWs praticam mais sexo do que os proprietários de outros veículos, tendo sexo 2,2 vezes por semana.
Coitadinhos dos condutores dos Porshes que só o fazem 1,4 vezes.
Mas se for um Audi, já volta a subir para 2,2 vezes.
Ora, BMWs e Audis RENDEM…
Este estudo é bastante mais revelador se pensarmos nas compras que os autarcas têm vindo a fazer no respeitante à mobilidade.
Afinal, esta jogada de pôr os seus acessores de mobilidade e transportes (vulgo, motoristas) a conduzir Audis e BMWs revela uma perspectiva social e um cuidado latente com a satisfação dos colaboradores autárquicos.
- “Ambrósio, não podes folgar esta semana e isso do aumento de 3,2% vai ser difícil. Tu já viste bem, o esforço que temos feito para modernizar a frota? Não há dinheiro! Mas diz lá… gostas de ter sexo 2,2 vezes por semana, não gostas? Ahh pois é, a vida é feita de escolhas meu amigo…”
Resta-me ainda reflectir sobre outros dois importantes acontecimentos da semana:
1º - A morte do Sr. Champalimou (nunca sei bem como se escrevem estes nomes tipicamente nacionais…).
O ministro Paulo Portas referiu, e muito bem, que “Faziam falta em Portugal mil, mil empresários como ele!”. Tendo em conta que o senhor tinha grande parte do seu capital investido no Brasil, acho que ele tava a querer dizer: “Salvaguardem o que poderem que o país pode falir a qualquer momento!”.
2º - Na passada 5ª feira tivemos mais uma rejubilante sessão de “Porta Verde”. Horas à espera de ver Carlos Cruz sair, rezando, para a sua casinha em Cascais.
Houve de tudo: emoções ao rubro, jornalistas desorientados, mensagens repetitivas e agonizantes, presságios… mas valeu a pena.
Acho muito bem!!! Afinal o Drº Serra Lopes merece sentir alguma euforia, alegria e interesse em torno da sua pessoa já que a vida íntima não lhe corre bem… É que com aquele Mercedes… não passa de 1.6 vezes por semana!
Domingo, Maio 09, 2004
já que estamos numa de citações, preparem-se para algo encantador:
Depois do jantar, eu e Lydia fomos para o quarto e estendemo-nos. Lydia tinha um fraco por pontos negros e borbulhas. Eu tinha o rosto estragado. Ela virou a lâmpada para o meu rosto e começou. Eu gostava daquilo. Fazia-me formigueiro e por vezes entesava-me. Muito íntimo. Às vezes, entre duas espremidelas, Lydia dáva-me um beijo. Ela começava sempre pelo meu rosto para em seguida passar para as costas e o peito.
«Tu amas-me?»
«Sim.»
«Oh, olha só este!»
Era um ponto negro com uma comprida cauda amarela.
«Nada mal», disse eu.
(...)
«Vira-te, deixa-me ver as tuas costas.»
Virei-me. Ela espremeu-me no pescoço. «Oh, está aqui um bom! Ele saltou! Atingiu-me o olho!»
«Devias trazer óculos de protecção.»
(...)
«Eu quero um bebé agora!»
«Vamos esperar.»
Tudo o que fazemos é dormir, comer, passear e fazer amor. Parecemos lesmas. Chamo a isto amor lesma.
«Eu gosto.»
em Mulheres de Charles Bukowski.
Bukowski era um indíviduo fantástico e um dos melhores escritores da sua geração. Como se isso não fosse suficiente era ainda um tipo cheio de charme.
Sexta-feira, Maio 07, 2004
Hoje vai um poema, para variar.
Não fui eu que escreví mas é quase meu.
É para lêr devagarinho, para saborear.
"A princípio é simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que leva a peito
bebe-se come-se e alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vem cansaços e o corpo frequeja
molha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso por curto que seja
apagam-se duvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida"
Sérgio Godinho
Quinta-feira, Maio 06, 2004
A corrupção, essa gloriosa instituição tão Portuguesa!
Sempre me intrigou esta ambivalência dos Portugueses em relação a este tema. E logo num campo que nos é tão familiar! Dir-se-ia mesmo que a palavra corrupção é tão característica deste pequeno rectângulo de terra quanto aquela outra palavra que afirmamos reflectir tanto a alma Portuguesa, a saudade.
Porque por um lado condenam, com a fúria de que só os justos são capazes, os atropelos legais perpetrados por aqueles que, supostamente, nos deveriam estar a representar. Até aí tudo bem, queimem-nos logo na altura é o que eu digo (penso que é escusado sublinhar a ironia, mas nos tempos que correm…). O que não compreendo, e talvez seja simplesmente por ser um imbecil - e posso muito bem sê-lo, há que esperar pelos resultados do teste -, é como conseguem ser capazes de condenar aquilo com que andam de mãos dadas durante o resto da semana. Não nos iludamos, a corrupção está tão entranhada na identidade portuguesa quanto o fadinho e as lezírias. Quiséramos ir mais longe e poderíamos dizer que a corrupção está entranhada na identidade humana, e nesse está bem claro que os portugueses são extremamente humanos.
O trabalhinho na Câmara para o Ramos, a multa perdoada do Fonseca, as férias do Dr. Sousa, o projecto aprovado pelo Senhor Engenheiro, as letras pequenas no contracto do Sr. Manuel, as facturas maravilha do António, o negócio da China do Simões, a declaração de impostos do João,
Isto porque vivemos num pais de primos e amigos. Somos todos amigalhaços uns dos outros, mas andamos a comer-nos (no sentido menos bíblico possível, pelo menos no âmbito deste texto) uns aos outros, porque há uma mentalidade generalizada de ah, ah, nasce um tanso todos os dias, mais um copo para esta mesa ó Torres, faça-me é um jeito nessa facturazinha.
Eu proponho, finda esta breve nota introdutória, que se clarifique o papel da corrupção no desenvolvimento de Portugal nesta altura em que, a crer no nosso digníssimo Primeiro (e que razões teríamos para não o fazer?), começa a recuperar da recessão económica. É que eu acho que isto da corrupção tem pano para mangas! Acho que está na altura de arranjar forma de pôr isto a render aos cofres do Povo, perdão, do Estado. Devíamos pôr a corrupção ao mesmo nível do Galo de Barcelos, dos Pauliteiros de Miranda, do Fado, do S. João, das casas de alterne em Bragança… É preciso começar a vender a corrupção como uma ideia portuguesa!
As maravilhas que isso não faria ao turismo no nosso território. Imagine, caro leitor, ter o Richard Branson na Praia da Rocha, o Berlusconi a fazer compras na Rua da Junqueira, o Bill Gates a tomar café em Cascais...
Quarta-feira, Maio 05, 2004
Enlargements à vontade do freguês: 6, 12, 15, 25...!
Vejamos o tipo de conversa que o génio ( para o efeito designamos por Chefe) que teve a ideia de fazer o alargamento (na sua versão original enlargement ) teve com o seu subalterno (Antunes) ...
- Ó Antunes- disse empolgado o chefe!
- Sim!- responde prestativamente o Antunes.
- Estive aqui a pensar e quero fazer um enlargement de 15 para 25...
- Mas chefe- responde Antunes atónito- isso não será muito? O que o leva a querer tamanha enormidade?
- Bem Antunes, cheguei à conclusão, ao fim destes anos todos, que se o nosso objectivo é dar-lhes boas condições na prática das suas vivências quotidianas, e subsequentemente a sua felicidade geral, acho que isto quanto mais melhor!
- Ah muito bem chefe, sempre a pensar no melhor para elas..!
- Tem de ser meu velho Antunes!- responde o chefe com um tom paternalista.
- Então e o chefe quer mesmo 25?!- pergunta Antunes a medo.
- Se é para por, ao menos que se ponha tudo o que se pode por de uma só vez...
( Faz-se silêncio. Passados uns instantes, Antunes interrompe)
- E ó chefe, assim com 25 não acha que haverá membros que ficarão inferiorizados e a destoar?
- Não se preocupe- responde o chefe com um ar benevolente- Assim como assim, dada a sua localização às vezes penso que só cá estão para enfeitar...
(Gargalhadas!)
- Então e como pensa o chefe fazer isso?
- Bem... Creio que 23 em extensão ( assim para a frente, está a ver Antunes?) seria o ideal, depois punha-se qualquer coisinha assim de lado, coisa pouca, assim 2 sendo que 1 até pode ser só metade, no fundo 1,5... Mais que isto por agora não, talvez mais tarde a gente ponha mais qualquer coisita aqui à frente, assim como não quer a coisa, quando a malta já não sentir os efeitos e já estiver habituada ao novo tamanho...
- É bem chefe, é bem!- diz Antunes com um sorriso nervoso- Se bem que a meu ver isso mais pá frente é capaz de causar certos problemas... Veja lá chefe, o chefe põe-se aí a pensar no bem estar de todas e ainda vai arranjar problemas com outras...
- Oh meu velho Antunes, sempre a acautelar-me... Não se preocupe, eu agora vejo como é que isto assim fica, depois se der logo se vê o resto...
ATENÇÃO:
Este texto pretende retratar uma conversa entre dois quadros de uma qualquer instituição europeia. Qualquer analogia, ideia, paródia, reinação, brincadeira, malandrice, ou chalaça que o leitor faça que tenha cariz sexual ou análogo, leva-me a deixar o seguinte conselho: “Por favor vá curar essa mente depravada! Seu porco/a...”
Glossário:
“Enlargement”- alargamento
“Elas”- as comunidades
“quanto mais melhor!”- quantas mais comunidades/países
“membros”- (obviamente) outros estados membros
“extensão”- alusão ao facto do alargamento ser a Leste
“ao novo tamanho”-refere-se à nova área geográfica da União Europeia
“vai arranjar problemas com outras”- refere-se à geopolítica da Turquia, evidentemente
Terça-feira, Maio 04, 2004
15 + 10 = A pastilha do Paulinho
Paulo Portas aproveitou as comemorações do 25 de Abril para mastigar furiosamente. É uma forma de descarregar a tensão como outra qualquer. Sem querer sublinhar em demasia a gritante falta de respeito numa comemoração do dia que “apenas” está na origem do Portugal democrático de que hoje usufruímos e abusamos, percebi hoje o porquê de tanta raiva acumulada. Não, não vou falar a feminilidade inerente ao comer vichyssoise, nem sequer da esquizofrenia característica de quem passa de jornalista a político (veja-se o que aconteceu a Maria Elisa, coitadinha, que, tão fortemente abalada pela enfermidade, foi obrigada a férias prolongadas na Embaixada Portuguesa em Londres).
O super-herói Paulo Portas mastigava o seu futuro, um em que o restauro do grande Império Português parece mais improvável que uma boa prestação no Euro 2004. D. Sebastião perdeu-se no caminho, Salazar caiu de vez da cadeira e até Freitas do Amaral mudou de camisola para o BE. Com as convicções democráticas (duplo sic) que lhe são conhecidas, percebo a sua preocupação. Ele que conseguiu, qual Luís de Matos, desviar uma grande fatia dos Orçamentos de Estado para comprar submarinos de pau em vez de promover a generalização da educação e a integração social, vê agora o Dia do (seu) Juízo Final aproximar-se.
Newsflash: tanto se aproximou que finalmente chegou.
E basta de andar à volta do tema. Falo de uma União Europeia com 25 participantes. Falo da confirmação da queda do Muro de Berlim. Falo de 453 milhões de pessoas sob o mesmo tecto. Falo de uma efectiva (até ver) mescla de realidades históricas, credos, raças sob a mesma égide: a da livre circulação de bens e pessoas. E é a partir daqui que surge o problema do nosso anti-herói (eu chamei-lhe super-herói ainda há pouco, não foi?). É que a partir de agora deixam de existir desculpas. Na já reduzida cota de admissão de emigrantes deixam de estar incluídos estónios, letões, lituanos, húngaros, checos, polacos, eslovenos, eslovacos, malteses e cipriotas. Ah, como se deve contorcer o Ministro da Defesa nos seus jantares com a malta do Lusitânia Expresso. Pior que isso só mesmo a evidência de que a pluralidade é inevitável e, como resultado dessa multiplicidade que passará a definir o ser-cultural europeu, terão de passar a existir as devidas equivalências.
Resumindo: não só foi acrescentado um mercado 10 vezes mais vantajoso em concorrência com o português, como também teremos de passar a reconhecer os diferentes graus académicos como válidos em toda a UE. E isso quer dizer o quê, efectivamente? Que já não vamos poder dar-nos ao luxo de ter médicos a carregar tijolos do Alvaláxia XXI nem sociólogas a limpar as escadas do Forte de S. Julião da Barra. Tudo isto é demasiada informação para o nosso político de meio-metro. É “demasiado mau” para ser verdade. Arriscaria até a adivinhar os seus pensamentos mais íntimos e quase colocaria a minha mão em jogo (sob pena de ela ser privatizada à par com a segurança social) ao dizer que o líder do CDS-PP acusa os comunistas deste golpe “igualitário” (tudo em ambiente muito restrito, enquanto chora no colo do irmão Miguel).
Explicada que está a situação, let’s cut some slack no nosso querido queriaserum-herói porque a semana tem custado a passar e as noites parecem cada vez mais longas.
P.S.: alegre-se, senhor Ministro, que durante 15 dias não estaremos mais na cauda da Europa.
P.P.S.: e tudo isto sem sequer dissertar sobre as contracções esfincterianas que a expressão “enlargement” dão ao Paulinho
P.P.P.S.: um simples “Benvindos” teria ficado melhor à SIC, em vez de confundirem o alargamento da UE com o Herman SIC e convidarem gente para mostrar as suas iguarias nacionas… ai que culturalmente avançados que nós somos que até pão da Letónia e espargos da Polónia comemos ao pequeno almoço!
Segunda-feira, Maio 03, 2004
He is Alive and moderadamente Kicking
Desenganem-se os que julgam que Nuno Rogeiro hibernou.
Em tempos de crise o melhor é apostar em empregos fixos. Ainda para mais nunca se sabe quando é que a paz vai chegar ao mundo e é preciso estar preparado para outras alternativas profissionais.
Assim sendo, o senhor lá arranjou os seus 30 minutos de “Por Favor Não Se Esqueçam De Mim” num conhecida rádio na nossa praça (aquela grande rádio extinta no 25 do quatro e que agora reapareceu). Com ela ressuscitou também Nuno Rogeiro.
Afinal o senhor também respira em tempos de “Paz” e até sabe dizer duas ou três frases sobre a pedofilia da Casa Pia ou sobre o Benfica-Sporting de ontem. After all, Rogeiro é um homem comum que até vibra e transpira com isto do futebol. Imagem estranha esta: Nuno Rogeiro de manchas nos sovacos a vibrar como qualquer adepto e a gritar para o arbitro: Merecias era um míssil Terrakut no Cu meu cabrão!!
Mas o amigo Nuno não é apenas bombas e galhofadas, amigo Nuno é sensível e sensato apreciador de piano e, principalmente, jazz. Já que agora também se dedicou à fashion tarefa de conselheiro cultural. Conselho da semana: Musica da Edite tocada ao piano por um fabuloso gajo qualquer!
A mãe de Rogeiro tem todas as razões para estar contente. Já o estou a imaginar ontem, no seu almoço de Dia da Mãe:
N.R.: Mamã vês como me tenho saído bem, mesmo sem guerras e essas coisas todas? Com sorte para o ano até vou mudar o penteado… Mas por agora, DEVOLVE-ME O ACTION MAN!!!!!!
Mamã: Essas coisas violentas fazem mal! Não pode ser … Mas tenho aqui este livrinho sobre as Orquídeas Mesopotâmias do Sul, és capaz de gostar…
N.R.: Mas oh mamaaaaaa…
Mamã: Não tarda nada tas a levar com um balázio no dedo do pé se não tiras essas ideias da cabeça! Estes miúdos pá… só guerras… só violências…
É por isso que eu gosto desta vida pacata do Caramulo.
Sábado, Maio 01, 2004
vintecincodoquatrosempre
Quando andava na primária pensava que o velho que vinha à varanda da frente gritar "vintecincodoquatrosempre" fazia-o apenas porque era um dia feriado. A verdade é que toda a gente gosta de feriados e, bem vistas as coisas, se o vintecincodoquatro fosse todos os dias ninguém teria de trabalhar. Sabendo que o senhor Valdemar do 2º dto começa a sentir as primeiras perdas de urina, resultado de um galopante problema de incontinência, parece-me boa ideia - para ele e para quem mora perto - que este não saia de casa. Vintecincodoquatrosempre, diuréticos nunca mais.
