Informação do século XXI. Factos para quê ? Info-desentretenimento de alta qualidade. Montagens de alta resolução. Registos sonoros editados completamente fora do contexto. Uma espécie de TVI meets 24Horas interactivo. Sete mentes depravadas em repasto intelectual.

Terça-feira, Agosto 31, 2004

Dúvidas legais

Se um barco igual a tantos outros não pode aportar em Portugal porque possui material cirúrgico usual na interrupção voluntária da gravidez, visto que a IVG é ilegal (sic) em território português, isso quer dizer que o meu carro, por estar equipado com um motor que me permite ultrapassar os limites legais de velocidade em Portugal, também deveria ser controlado pela Brigada de Trânsito até me encontrar numa zona em que seja legal usar e abusar dos 155km/h de loucura que ele oferece (digamos, no autódromo do estoril ou na embaixada alemã, por exemplo)?

E se é ilegal esse mesmo barco aportar e, por isso, impedido de recolher quem de vontade própria quer usufruir dos seus serviços para práticas a serem efectuadas em águas internacionais, já não há problema em usar outras embarcações para servirem de transporte colectivo até esse mesmo barco "ilegal"? Não é uma e a mesma coisa ?

Devo, portanto, supor que a legalidade é uma questão de perspectiva ou de cor política ? Faz-se um referendo, uma das posições vence, criam-se leis que, entretanto, são aplicadas consoante a hipocrisia de quem controla "os assuntos do mar" nesse mês ?

E já agora, as mulheres que utilizarem esse barco, serão também levadas à julgamento para exporem a sua vida íntima (isto tudo num quadro de cumprimento legal), serem acusadas, condenadas e depois ilibadas por haver uma percepção geral da idiotice que a lei às vezes representa ?

É, no mínimo, absurdo impedir um acto normal de navegação apenas porque determinadas características ou objectivos do navio em questão não se enquadrarem na lei portuguesa. Que vão fazer a seguir ? Cortar-nos as mãos porque, potencialmente, podemos empunhar facas ou armas de fogo para matar alguém? Ou que tal retomar a censura porque podemos usar a nossa liberdade de expressão e voto para garantir que erros como a eleição (sic) deste governo (duplo sic) não se repete ?


Quinta-feira, Agosto 26, 2004

Never(Again)Land


Estão a planear fazer uma sequela de Peter Pan. Não me refiro ao filme. Não me refiro sequer ao desenho animado. Refiro-me ao livro original de J. M. Barrie. Deixem-me reformular: querem escrever um Peter Pan 2! É que nunca é de mais repetir… J. K. Rowling (a mesma do Harry Potter) é a principal candidata à tarefa.

Que se seguirá? Anna Karenina: O Regresso? Alice Volta ao País das Maravilhas? A Metamorfose: Agora Em Maravilhoso Technicolor?

Preocupa-me que esta mania se venha a estender aos livros. Porque já é prática corrente no cinema, por exemplo. Ele são sequelas, prequelas, remakes, adaptações de videojogos, da literatura (e, porque não, remixes e remasters, no caso da música)… Mal aparece uma ideia minimamente original que obtenha sucesso, há que espremê-la ao máximo, com cuidado para não deixar escapar uma gotinha de sumo que seja. Para um apreciador de cinema como eu, que gosto de tudo desde os mais pipoqueiros blockbusters (contando que não insultem a minha inteligência) até aos mais obscuros filmes independentes expressionistas existencialistas niilistas bielorussos, isto é um fenómeno preocupante. É caso para começar a pensar se não se estarão a esgotar as ideias dos argumentistas…

Não acho que assim seja. O que há é um grande oportunismo da parte das grandes produtoras de cinema, e sobretudo uma grande falta de vontade de arriscar e de explorar. E mesmo assim dão mostras de grande criatividade! São capazes de arranjar forma de Charles Foster Kane regressar dos mortos para reconstruir o seu império e terminar a construção de Shangri-La, só para não deixarem desperdiçar uma licença daquelas.

A grande problemática do cinema como arte é que mesmo a mais modesta das produções envolve um nada desprezível custo. O artista solitário, rodeado apenas pelos seus fantasmas interiores e esquizofrenias agudas, é uma imagem impossível em cinema. E ainda assim, eu sou da opinião que o cinema é das artes maiores.

Felizmente, ainda há uma série de cineastas inventivos que ainda vão conseguindo produzir, graças a uma boa dose de carolice e manha, filmes interessante, originais e provocadores. Com o desenvolvimento da Internet de banda larga, vai começando a ser possível até serem eles próprios a distribuir as suas próprias criações. Aliás, como já vem acontecendo no caso da música.

Até lá, ficamos com as sequelas, as respectivas adaptações ao cinema, as bandas sonoras, as séries de televisão, os videojogos, os bonecos articulados, as t-shirts, as canecas… Como nos mimam!

Terça-feira, Agosto 24, 2004

O Grito de PSL e PP


Aparentemente, Pedro Santana Lopes e o seu porta-chaves, Paulo Portas, foram vistos para os lados de Oslo. Conduziam uma carrinha Audi A6 e vestiam camisas de flanela e máscaras de ski. Entraram numa sala com muitos desenhos e um deles exclamou: "Oh, que gaja boa!". E Santana saiu com a Madonna de Edvard Munch debaixo do braço. Paulo Portas não quis enfraquecer a sua facção do governo e vociferou, por isso, bem alto: "Ai que boquinha tão laroca!". E meteu O Grito dentro dos boxers. A polícia norueguesa tem esperanças, ainda, de recuperar a Madonna, suspeitando que ela será apresentada nos próximos dias 13 e 14 de Setembro, nas imediações do Pavilhão Atlântico, onde, alegadamente, Santana irá tentar engatar a cantora norte-americana com o mesmo nome, prometendo-lhe o quadro e um ministério com residência no Algarve.

Domingo, Agosto 22, 2004

De Obikwelu a Dungannon ou viceversa

Obikwelu e Dungannon, curiosos nomes.
1º - Qual dos dois é um nome de pessoa?
2º - Qual dos dois tem a ver com Portugal?
Para começar, têm em comum os dois vocábulos o facto de serem ambos dignos de 1ª página na edição nº 5265, do ano XV, do diário PÚBLICO.
Haverá alguma outra relação entre ambos?
Voltemos então à minha primeira pergunta. Quem apostou pelo primeiro nome acertou. Efectivamente, Obikwelu é a graça de um grande atleta português. Dungannon, por seu lado, é o nome de uma pequena cidade irlandesa pouco pacífica.
Quanto à segunda pergunta, a resposta correcta seria: ambos. No caso de Obikwelu já está esclarecido, é um atleta português que bateu nesta edição dos Jogos Olímpicos o recorde nacional dos 100 metros. Quanto a Dungannon, a cidadezinha, é o local onde emigrantes portugueses sofrem ataques por parte de grupos nacionalistas católicos, os mesmos que todos os anos têm direito à sua merecida peça de 7 minutos, no Jornal Nacional, na qual aparecem a apedrejar, insultar e afins os seus conterrâneos protestantes.
Obikwelu, português de dois anos, (até 2002 era nigeriano), é um bom exemplo de que quando "nos" convém, o processo de naturalização é muito fácil. O que é que se passa com os angolanos, caboverdianos, guinienses ou moçambicanos? Também "nos" convêm e ainda por cima falamos a mesma língua?! Ah, já sei, não aparecem na televisão com triunfos, só com delitos. Então está bem, deve ser por os nigerianos serem todos muito bons e os "outros" não. Se a televisão o diz...
Não se preocupe, caro leitor, que não me esqueci dos nossos paisanos emigrados na Irlanda do Norte. Pois é, os "indígenas" católicos andam a tratá-los mal. Sim, porque na Irlanda nós somos angolanos ou caboverdianos, quer dizer, trabalhadores de "terceira" - que feia expressão, não acha. Podia gastar aqui umas quantas palavras com os referidos indígenas mas não, não merecem. Para além disso, não sou apologista de escrever palavrões e frases básicas e ofensivas.
Uma coisa lhe garanto caríssimo, em Espanha a violência - refiro-me a espancamentos brutais - contra sul americanos ultrapassa de sobremaneira os quatro casos da Irlanda. Mas não, não é noticia. Quantos pretos são "molestados" em Portugal? Pois, não é noticia. Pode ser que quando o digno leitor estiver a passear por terras de nuestros hermanos e for espancado, apareça na primeira página de um diário português. De uma coisa pode ter a certeza, não será primeira página de nenhum jornal espanhol e menos ainda irlandês.

Sexta-feira, Agosto 20, 2004

Aproveitando o mote das fronteiras e afins:

Às vezes construímos ilhas. Refiro-me neste caso a ilhas interiores.
Ilhas nas quais a única noticia somos nós próprios.
Refúgios? Egocentrismos? Meditação? Omm?
Sem duvida masturbação intelectual.
Isolamentos aparentemente impermeabilizados do mundo exterior. Sim, sejamos francos, conhecem alguém que esteja ou seja efectivamente impermeável ao mundo "exterior", seja lá o que isso for.
Pode haver quem interprete, e acho isso óptimo, mundo exterior como: "eles andem aí" ou qualquer estória ou, quem sabe, história de extra terrestres. Como já disse, acho óptimo, a sério, mas não tem nada a ver. Essa é outra estória, outro curioso tema para outro curioso post.
Voltando. Ilhas que não são desérticas. Somos nós próprios seus únicos habitantes. Não são, por tanto, desérticas. E não pensem que o tédio impera. Não. Haverá alguém que tenha tão tamanha capacidade de nos chatear com nós próprios? É uma pergunta retórica, - outra -, para mim a resposta é óbvia, se alguém tiver alguma dúvida que se feche numa casa de banho de luz apagada umas 3 ou 4 horas, ou então que continue com a dúvida, resultou com Descartes.
Pois é meus caros, estas também são fronteiras. Provavelmente as primeiras a abater. Não faz sentido, e é esta a opinião deste bloggista (ou coisa pior) que hoje, mais uma vez vos escreve, esbatermos fronteiras políticas, culturais, religiosas ou atrasadas mentais sem antes tratarmos de nós próprios.

Eis a proposta:

Construamos pontes que liguem as nossas ilhas.

Não façamos casotas nessas pontes

Não empreguemos espécimens, humanos ou não, para habitarem as casotas que não iremos construir, para não termos que os mandar "pró fundo de desemprego" ou coisa pior.

Tratemos depois do resto.

p.s.- Alguém conhece um bom engenheiro civil que esteja em saldos? Ah, esse não vale, eu bem vi o que aconteceu em Entre os Rios!

Terça-feira, Agosto 17, 2004

Na sequência do post anterior, permito-me a utilização deste espaço para contestar violentamente a opinião do meu colega. Antes de mais, é sempre digna de suspeita a opinião de um hedonista, quanto mais do Hedonista. Consta-me que a sua busca pelo prazer é desenfreada e esta conversa anti-fronteiras físicas/pró-fronteiras culturais nada mais é do que um dos seus muito esquemas para engatar dignas senhoritas, nomeada e ultimamente, as da designada zona do oeste estremadurenho português. Quantas não foram as vezes que me arrastou para estas debandadas dignas de quadrúpede em período de alteração sazonal de hormonas, com aquela conversa de "Ah, e tal e coisa.. Que tal rompermos aqui com as fronteiras físicas da roupa e fôssemos para a minha tenda (sim, porque de economias estavamos todos de rastos) ? Podíamos caminhar de forma libertária para lá, como se fôssemos um único elemento com o ar e a energia que nos rodeia. Lá chegados, encetaríamos diversas trocas culturais, nomeadamente ao nível dos fluídos e seus derivados...". Isto, meus senhores, é só para criar uma reasonable doubt sobre as intenções e a personalidade do Hedonista ao proclamar o fim das fronteiras físicas. Suspeito que sua única vontade é fazer Porto-Kiev com menos paragens, para lá, repetir as façanhas que tem feito pelas zonas do Oeste, tendo já caido no seu engodo uma inocente senhorita das terras do Bombarral. Continuando, que não é dele que se quer falar aqui. Eliminar as fronteiras físicas ? Homem apenas dono do seu corpo e da sua propriedade intelectual ? Mas vossemecê anda, porventura, a ingerir substâncias psicotrópicas ? Provavelmente, sim, mas adiante! Deixe-me dar-lhe só 3 cenários possíveis nesse seu mundo imaginário:

1. Um mundo sem o pessoal que tá dentro das casotas nas fronteiras, sem fazer nada, porque elas já não servem para nada. VOCÊ QUER UM MUNDO SEM ESSAS CRIATURAS ? Onde está a sua compaixão ? Poderá dizer-me até: "Mas eles estão lá parados, sem fazer nada, parasitas de um sistema que prefere estagnar a deixá-los procurar por si uma nova forma de absorção na sociedade produtora.". Enganado! Muitíssimo enganado! Veja essas nobres criaturas como os insectos da nossa sociedade. Inúteis na teoria, mas essenciais para o equilíbrio natural das coisas. No entanto, este é já um raciocínio que ninguém sabe desenvolver... Seria um trágico mundo!

2. Desapareceriam montanhas, rios, mares, entre outras preturberâncias ou profundidades físicas que, desde séculos ancestrais, têm servido de defesas contra a Mãe Natureza ou, simplesmente, contra a idiotice do vizinho do lado. Desapareceria o rio Minho e Portugal estaria umbilicalmente ligado a Espanha (como seriam os acampamentos em Caminha, nesse mundo ?). Desapareceriam os Pirinéus e o livro "A Jangada de Pedra" de Saramago ainda teria menos sentido do que tem. Desapareceria o Oceano Atlântico e Lisboa e Nova Iorque seriam uma e a mesma cidade e estaríamos agora todos a chorar a perda de um familiar nas Torres Gémeas e a chorar ainda mais a escolha de Bush para a presidência. Pior que tudo, desapareceria aquele nicho de mar que mistura Atlântico e uns borrifos de Mediterrâneo a que se chama Algarve e nunca mais o jet-set poderia passear na Marina de Vilamoura simplesmente porque não haveria mais mar para encher a Marinha, apenas narguilés e homes a tentar desenfreadamente trocar camelos marroquinos por vacas europeias.

3. Se fôssemos donos exclusivos apenas do nosso corpo e da nossa propriedade intelectual, sermos-ía-mos apenas putas com dois dedos de testa. Deste modo, somos putas, com dois dedos de testa e um PC para escrever estas idiotices quando nos ocorrem. Somos, portanto, mais completos assim. Não só possuímos uma porrada de coisas inúteis como podemos, também, usurpar propriedade alheia. Vejo em si uma vontade horrível para o mundo! O Sr. Hedonista quer transformar-nos todos em Hare Krishna's com barracas vegetarianas em festivais capitalistas e esse não é o meu mundo! No meu mundo das fronteiras físicas, os ventos que trazem penteados como o seu não ultrapassam a Serra do Caldeirão, permitindo-me manter todo o crânio coberto mais ou menos uniformemente por uma penugem... Nem sei o que lhe dizer mais!

Hoka Hei

P.S.: Ah, sei sei! A minha borboleta ?

Quinta-feira, Agosto 05, 2004

So Long And Thanks For All The Fish

Ah, a arrogância juvenil e ignorante dos Homens…
A começar pela célebre representação da evolução humana. Sim, aquela que vai dos primeiros hominídeos, quadrúpedes e imbecis, até ao glorioso Homo Sapiens, caminhando orgulhosamente erecto, claramente consciente da sua supremacia sobre as pobres bestas que foram criadas por Deus para o servir. O próprio Darwin, tão criticado por aquela coisa toda da “sobrevivência do mais forte” (será tão difícil, sobretudo num Mundo tão aguerridamente neoliberal, perceber que esta regra está plenamente em vigor?), mostrou o seu desagrado face a essa imagem, porque insinuava que a evolução tendia para o Homem. O Homem não é mais evoluído do que os primatas, é simplesmente mais evoluído em determinados aspectos que, por agora, determinam que ele seja o animal preponderante. No entanto, há milhares de espécies que ultrapassam largamente em número os humanos e que ocuparam ecossistemas que, mesmo com a toda a actual capacidade tecnológica do Homem, lhe continuam vedados. Espécies altamente complexas, extremamente diversas e espantosamente adaptadas aos meios ambientes. Nada garante que o homem permaneça no topo da pirâmide, caso os factores ambientais de alterem. Aí as regras do jogo mudam.
Depois há aquela tendência, mesmo que inconsciente, para considerar que o Homem é capaz de comportamentos antinaturais. Como podemos iludir-nos tanto? Não há nada que possamos fazer que seja contrário à nossa Natureza. Todos os comportamentos são naturais, mesmo que sejam reacções naturalmente contrárias à nossa natureza. Confuso? Nem por isso… Edgar Morin postulou alguns destes princípios na sua obra, em particular sobre a relação entre a Sociedade e a Natureza Humana que, ao contrário do pensamento generalizado até então, não estão necessariamente em contradição. Esta concepção errónea está em parte associada à ideia de o ser humano possuir uma “alma”, ao contrário dos outros animais. Esta posição privilegiada do Homem como filho preferido de Deus é contrariada por tudo o que aprendemos da biologia moderna. Perdoem-me os teólogos intransigentes.
Outra coisa é a ilusão de que a terra pode pertencer a alguém, simplesmente por sermos capaz de a ocupar. Quanto muito, são os Homens que pertencem à terra, e não o contrário. As fronteiras físicas (agradam-me muito mais as fronteiras naturais, as fronteiras culturais, as fronteiras de ideias, difusas e abertas) são uma perfeita ilusão, e a razão de tantas idiotices perpetradas para alimentar a nossa vaidade humana. Na minha opinião, os Homens devem ser donos apenas do património humano, das suas ideias, dos seus corpos, das suas criações.
Razão tinha Douglas Adams, que no seu The Hitchiker’s Guide To The Galaxy dizia que os golfinhos eram o segundo animal mais inteligente no planeta… a seguir aos hamsters.
E, como diriam os simpáticos cetáceos,
So long, and thanks for all the fish!

Terça-feira, Agosto 03, 2004

as bandeiras, ainda...


Foi com a melhor das intenções que O Professor sugeriu uma nova decoração para as fachadas das humildes casas do nosso burgo. Muito bem, o povo aderiu entusiasta, ficava bonito, desde os decobrimentos que eu não me sentia tão bem. Passado tanto tempo desde aquele estado-de-demência-temporária-vocês-sabem-do-que-é-que-eu-estou-a-falar, sugiro uma nova intervenção d´O Professor: em directo, do seu púlpito, ensine aos portugueses como dobrar a bandeira e em que gaveta a colocar. deverá seguir-se uma série de conselhos sobre como evitar manchas de humidade ou a inequidade das traças. Se faz favor, Professor.



Fahrenheit 9/11 dá quanto em Celsius ?

Foram várias as ocorrências dos últimos quinze dias. O ócio, associado a uma persistente micose entre o mindinho e o anelar do pé esquerdo, impediram-me estar presente neste espaço há 8 dias. No entanto, mesmo ébrio e semi-adormecido, nada no país escapou ao je. Pelo menos quatro acontecimentos foram dignos de registo.

1. Ainda temos governo. Aqui está algo tristemente fantástico. Somos os segundos da provar a inutilidade do voto se as pessoas ignorarem os deveres e os direitos que lhes assistem através dele. Infelizmente, as presidenciais norte-americanas de 2000 detêm o direito à primogenia neste assassinato absurdo da democracia (vá lá, nós ainda sabemos contar até 10).

2. Fogos e mais fogos. Em todo o lado. Cumpre-se a máxima (mais uma vez, com grande tristeza minha) dos eternos Velhos do Restelo que diziam que o que não tinha ardido o ano passado iria ser vítima da combustão acelerada do Verão este ano. Sugestão: comecem a deitar protector solar de factor 50 nos sobreiros e pinheiros lá para os finais de Maio.

3. A Pimpinha Jardim espatifou novamente o carro da mãe. Desta vez foi no sul de Espanha com umas amigas. A carrinha BMW é que não se safou, ainda que as jovens petizes (ou putisas, como um dia aprendi ser o feminino de putos) estejam bem de saúde. Digno de registo é esta ser a capa do 24Horas de hoje. A capa! Qual fome no Darfur ? Qual guerra no Iraque ? Quais assassinatos políticos em Cuba ? Qual manipulação dos media nos EUA ? A Pimpinha espetou-se e isso é que interessa. Fica em segundo lugar no top das idiotices reportadas este ano, logo a seguir à corrida em contramão de Paulo Portas em Lisboa para chegar a tempo de um cocktail (ou de uma cock party, sabe-se lá para onde darão as vontades do nosso mui pequenino Ministro da Defesa [e assuntos do mar...]).

4. Vi, finalmente, o novo documentário de Michael Moore. E se já tinha gostado do Bowling for Columbine, mais gostei ainda deste polémico Fahrenheit 9/11. E passo a explicar porquê: comprova a minha teoria sobre a estupidez humana. E que teoria é esta, perguntam os leitores? Bem, é algo que acabei de inventar e que se divide em três ramos: 1. se nos rirmos perante uma plateia de forma convincente, eles acabarão por rir, sem saber porquê; 2. se ficarmos calados perante uma plateia de forma igualmente convincente, eles acabarão por rir, sem saber também porquê; 3. se alguem nos repetir aquilo que já sabemos, acharemos genial. O documentário de Michael Moore enquadra-se neste último ramo. Na verdade, tal como Bowling for Columbine, Fahrenheit 9/11 não nos diz nada que já não saibamos e que não tenha estado ao alcance de qualquer cidadão norte-americano ou mesmo mundial: que as eleições de 2000 foram uma fraude, que os cidadãos norte-americanos ainda mais fraudulentos foram ao permitir que algo do género acontecesse; que George W. Bush é um idiota chapado; que a Guerra do Iraque e a do Afeganistão são poeira nos olhos na guerra contra o terrorismo; que o que interessa naquela zona é o ouro negro, etc etc etc. Ou seja, os factos eram já sobejamente conhecidos. Cabe a Michael Moore o crédito de ter tomates de ser menos hipócrita nos Estados Unidos da Apatia. Se ainda não viram, vejam, porque Fahrenheit 9/11 permite-nos chegar a 3 conclusões: nunca antes uma conspiração para atingir o poder foi tão mal programada e levada a cabo; ainda assim, pelo instigar de medo às colheradas na população, o golpe de estado em que se traduziram as eleições de 2000 foi eficaz; a Madeira será a próxima ditadura do Eixo do Mal a ser atacada.

Só espero que, ainda que as circunstâncias sejam diferentes, as presidencias norte-americanas deste ano funcionem como as últimas eleições presidenciais francesas: que na opção entre a extrema-direita totalitarista e uma direita moderada, escolham o mal menor. Que é como quem diz, tudo menos Bush.