Comunicado Oficial da Gerência
Interrompemos a emissão habitual para anunciar que este blog vai enveredar por uma linha editorial bastante distinta da que até agora temos procurado seguir.
Decidimos romper com a orientação negativista que nos tem caracterizado, conscientes de que, numa altura em que o nosso Grande País atravessa uma fase de alguma instabilidade emocional – apesar dos gloriosos esforços dos nossos altos líderes -, e estamos determinados em reverter as consequências negativas que indubitavelmente, e por nossa absoluta responsabilidade, se fizeram sentir na saúde emocional dos Portugueses e na sua Fé.
Tomámos então a decisão de focar a nossa intervenção jornalística nos inúmeros aspectos positivos que a vida e em particular o nosso belo pedaço de terra têm para oferecer. Numa época de incerteza e de crise espiritual, a última coisa de que o nosso povo precisa é de um bando de pessimistas a apontar o dedo indiscriminadamente, quais velhos do Restelo dos tempos modernos.
Esta é uma decisão tomada de plena consciência e de livre vontade. As razões por detrás desta mudança de orientação editorial não se prendem, de forma alguma, com pressões exercidas por parte do governo ou qualquer instituição relacionada com o governo. Repito, não há aqui qualquer forma de pressão, manipulação ou influência por parte das instâncias governamentais. E se coacção houvesse, seria apenas perfeitamente legítimo da parte dos nossos grandes dirigentes.
Viva o nosso Primeiro Ministro.
Viva Portugal e as colónias.
A dirigência
P.S.- Na verdade, esta foi uma iniciativa individual da minha parte, mas penso que os meus colegas certamente concordarão comigo.
Quinta-feira, Outubro 28, 2004
Quarta-feira, Outubro 27, 2004
A NOSSA DEMOCRACIA TEM ACNE
Quando se fala da democracia portuguesa na sua especificidade, uma das qualificações usadas é o adjectivo jovem. A nossa democracia é jovem, apenas 30 anos e alguns meses. Usar esta expressão para definir um sistema político remete-nos, de imediato, para uma personificação de um tema maioritariamente enfadonho como a política portuguesa. Permito-me imaginar mais um pouco:
- a nossa democracia é daqueles jovens de 30 anos que se recusam a sair de casa dos pais; os pais até gostam de os ter lá em casa, apesar de isso incomodar um pouco a redescoberta de uma sexualidade na meno/andropausa, mas começam a estranhar.
- a nossa democracia não gosta de trabalhar; está há 15 anos numa faculdade de direito a tentar fazer a cadeira de Direito Constitucional, mas, na verdade, não quer saber patavina da Constituição: quer é chegar a Dux - a mais idiota democracia da Europa, quiçá do mundo...
- a nossa democracia usa golas altas durante o dia e mini-saias durante à noite; é uma respeitável senhora aristocrática à luz do sol e uma ninfomaníaca nas esquinas escuras (não há contribuinte que passe que não seja sua vítima).
- a nossa democracia não sabe controlar a mesada, estoura-a em submarinos e 5 motoristas para a empregada da limpeza (antes fossem para ela, merece-os bem mais) e chega o dia 15 e já está a pedir um reforço aos pais.
- a nossa democracia explora a fraqueza parental e troca-lhes a volta, porque a diferença entre amor e exploração é apenas uma questão de semântica.
- a nossa democracia é ignorada por todos, nunca irá casar nem ter um apartamento em Vialonga, nem 7 filhos, nem um Renault 5 quitado, nem um Rottweiller castrado.
- a nossa democracia fica mais feia à medida que vai sendo ignorada e quanto mais ignorada menos vontade há de sair à rua e não saindo à rua menos são os já parcos pretendentes da nossa democracia.
- a nossa democracia é como a culpa: morrerá invariavelmente solteira.
Resumindo: passamos 40 anos à procura de sair de uma ditadura e os últimos 30 a gozar com o poder judicial (que é lento, que é parcial, que é injusto), com o executivo (o Mário Soares é gordo, o Cavaco é rígido, o Guterros tem tiques, o Durão é tótó, o Sampaio é um fantoche) e com o legislativo (PS e PSD é tudo a mesma coisa; Irão/Iraque, quem nota a diferença?).
A nossa democracia é uma vergonha para o próprio conceito do termo, mas não porque existe um primeiro-ministro que não foi eleito com um programa eleitoral que não foi a sufrágio.
A nossa democracia é uma vergonha para si própria, mas não porque tem um primeiro-ministro que impõe limites à comunicação social.
A nossa democracia é uma vergonha porque achamos, oh contribuinte apático, que isso é normal.
Quinta-feira, Outubro 21, 2004
Num debate bastante divulgado pelos meios de comunicação, ouvi alguém dizer que o papel do estado era garantir a legalidade dos conteúdos programáticos das televisões públicas, como por exemplo garantir que não haja transmissão de pornografia.
Alto e pára o baile! Terei ouvido bem? Andam a brincar connosco? Não quero viver num Mundo em que a pornografia seja considerada conteúdo não apropriado para uma estação de televisão pública!
Para não falar da evidente contradição que essa proibição acarreta. Ou não anda o país a ser… fornicado (para não usar termos explícitos, este post é serviço público) de todas as maneiras pelas mesmas instituições que controlam os conteúdos da televisão pública? É um verdadeiro gang bang com múltiplas penetrações simultâneas! E nos filmes pornográficos pelo menos os enredos são mais credíveis. Por isso deixem-se de hipocrisias!
E porque não deve ser a pornografia considerada serviço público? Aliás, e porque não estender o conceito à prostituição? Não deve o sexo ser um direito fundamental e inalienável do ser humano? Os feios, os malcheirosos ou os simplesmente desagradáveis (grupos nos quais me incluo) não têm também direitos? Não deve ser uma responsabilidade do Estado providenciar-lhes, no mínimo, um hand job? Sr. Morais Sarmento, vamos lá, arregace lá as mangas e ponhas as luvinhas de borracha. Ou o senhor Ministro não acha que o serviço público deve estar nas mãos do governo?
Terça-feira, Outubro 19, 2004
Gabinete do reitor da Universidade Católica em risco de penhora
in PUBLICO.PT
Os bens do gabinete do reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP) poderão ser alvo da execução de uma penhora judicial, após o Tribunal do Trabalho (TT) ter dado razão a uma ex-docente da instituição por despedimento sem justa causa, noticiou a edição de hoje do Diário de Notícias (DN).Segundo o DN, Maria José Craveiro tinha um contrato de exclusividade com a UCP no curso de Comunicação Social desde 1991.No entanto, a partir de 1999 a docente começou a ser remunerada à hora, sem que o vínculo laboral tivesse sido denunciado por qualquer uma das partes.O DN afirma que Maria José Craveiro avançou então para tribunal, depois de vários esforços para que fosse alcançado um acordo, sem que houvesse qualquer resposta às propostas da docente por parte da UCP. O TT deu então razão a Maria José Craveiro, tendo a UCP sido obrigada ao pagamento de todos os ordenados em atraso desde 1999 – cerca de 100 mil euros.A universidade recorreu da decisão judicial, sem depositar porém a respectiva caução no valor da indemnização, podendo por isso a acção executiva de penhora seguir a sua tramitação normal e proceder-se a qualquer momento.No arrolo dos bens a docente decidiu-se pelo recheio do gabinete do reitor, que inclui, segundo o DN, retratos a óleo dos antigos reitores (D. José Policarpo, José Bacelar e Isidro Alves), todo o mobiliário de escritório, peças orientais, figurinhas de terra cota, entre outros objectos.
[...]
A UCP, segundo a edição de hoje do DN, considerou sem interesse comentar à situação. Quanto a Maria José Craveiro, apenas confirmou a existência da penhora e afirmou que a opção dos bens arrolados foi essencialmente simbólica.
Só tenho três coisas a dizer:
1. Hahaha (repetir até à exaustão... respirar... e voltar a repetir...)
2. Craveiro é grande! (É só avisar, a malta leva umas madeiras e faz-se um Magusto à maneira com a mobília do Shô Reitor no jardim da Universidade
3. Se não usam as propinas para pagar às profs (nem às melhores, está visto), usam-no para quê? Para mandar polir o ouro judeu? Ou para pagar ao motorista que espera no BMW 550 todo o dia a dormir até que alguém necessite dele?
Quarta-feira, Outubro 06, 2004
Sistema Nacional de Saúde
Finalmente percebi todas estas trocas e baldrocas sobre as taxas moderadoras e os conceitos de utilizador-pagador e pagador-utilizador. Tudo fica mais claro quando experienciamos esses conceitos, senão vejamos:
Sábado à noite fui forçado a utilizar o serviço nacional de saúde num dos recentemente semi-privatizados hospitais do país;
lá chegado, dei os meus dados para a ficha médica e avisaram-me que tinha um prazo de 15 dias para pagar taxa moderadora e qualquer outro custo que não ultrapassasse os limites do razoável;
sendo assim, entrei com uma entorse (forte, mas nada mais que uma entorse, não preciso de ser médico para perceber que não tenho o pé partido) e a triagem de Manchester atribui-me a cor verde, gravidade mínima, o que aceito porque era apenas uma entorse;
mandam-se então para a frente da sala de ortopedia; 30 minutos depois vão me lá buscar para outra sala qualquer que estou no sítio errado;
entro então na verdadeira triagem de Manchester (na primeira só perguntaram o que tinha) e toda a gente tinha casos mais graves que o meu, como diarreia ou dor de barriga de ter comido muito; também aceitei, mas nesta altura já o tornozelo começava a inchar e a grande velocidade
resumindo, com o tempo à espera de ser avaliado pelo médico, mais o tempo até me mandar para o raio X, mais o tempo para ser atendido no raio X, mais o tempo para ele ver o raio X, mais o tempo para ele concluir que tinha um entorse e me receitar um anti-inflamatório, tudo somado chegou a 3 horas de consulta! TRÊS HORAS! 2 minutos de avaliação, outros 2 a tirar o raio X e 2h56 de muita paciência intermédia.
E a compreensão dos conceitos é esta: se temos 15 dias para pagar, pressupõe-se que também tenhamos 15 dias para ser atendidos. Faz sentido. Brigadinho, Santana!
