Sud Express
Eu não sou eu nem sou o outro
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
Lisboa, Fevereiro de 1914
Hoje choveu como em Paris.
Domingo, Fevereiro 27, 2005
Sábado, Fevereiro 26, 2005
Lisboa 
O fim-de-semana traz uma nova luz a Lisboa e dá vontade de sair à rua. Os carros raream, nada daquela poeira moderna de tubo de escape, negreando fachadas e transeuntes apressados para algum lado. O fim-de-semana leva o tempo para fora de Lisboa e o dia parece durar mais, não há pressas para se começar nada ou acabar o que quer que seja. Apenas se entende a necessidade de fazer e inevitabilidade de ser feito. E quando se sobe ao cimo do monte, rapidamente se percebe o quão fácil é apaixonarmos por este pedaço de foz do Tejo...
Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005
Direito ao Foda-se
Foda-se - por Millôr Fernandes
O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela diz. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me.
"Não quer sair comigo?! Então, foda-se!" "Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! Então, foda-se!"
O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição. Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.
"Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que "comó caralho"? "Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.
A Via Láctea tem estrelas comó caralho, o Sol é quente comó caralho, o universo é antigo comó caralho, eu gosto de cerveja comó caralho, entendes?
No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!".
Nem o "Não, não e não!" e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem.
O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto. Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida.
Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência.
Solta logo um definitivo "Jorginho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!". O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)
Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba.
Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos. Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.
E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"? Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai levar no olho do teu cu!"?
Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima. Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar:
"Fodeu-se!". E a sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!".
Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando estás a conduzir bêbedo, sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!"
Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se!
Millôr Fernandes
É preciso dizer mais alguma coisa?
Flip-Flopper Tuga
Já ouvi chamarem de "sabujo" a Luís Delgado e achei que talvez fosse um pouco demais usar este meio termo entre a descompostura e o insulto só porque um jornalista é pornograficamente tendencioso. Alguém tinha de defender Santana e o seu governo e a Delgado tinha calhado essa árdua tarefa, que lá foi desempenhando com afinco e manifesta incapacidade de public relations. O silêncio servia-lhe de escudo, deixando cair no vazio qualquer (quaisquer) acusação de favorecimento, "é mais um boy para um job qualquer"...
Achei "sabujo" demasiado até para alguém que vilipendia toda e qualquer regra do jornalismo, bajulando a um nível que a nem a crónica opinativa conhecia. No entanto, pior que "sabujo" é vira-casaca e Delgado já começou a mostrar o avesso do blazer de flanela de qualidade duvidosa.
Sócrates tem tudo?
Entre PSD e PS só cai o D, é tudo uma questão de semântica, não é verdade? E quem lê as crónicas do Luís Delgado no DN sabe que o português nunca foi o seu forte...
Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005
Pedro Magalhães vs. Eduardo Dâmaso
Citações da conferência protagonizada pelos dois (Helena Roseta não compareceu) na livraria Almedina, sobre o tema "Jornalismo e Política"
"Os portugueses são muito bons e muito maus. Muito bons a responsabilizar os governos. Muito maus em quem escolhem para representar o que pensam."
"As pessoas com pensamento económico mais liberal votam, curiosamente, no Bloco de Esquerda."
"Os portugueses seguem aquilo que os americanos chamam de gut rationality".
Pedro Magalhães, politólogo.
"Identifico, facilmente, estrangulamentos no aparelho partidário do PS e do PSD."
"Tento que o meu trabalho não seja tão mediocre como a política."
"Esta campanha teve algumas características esquizofrénicas."
"O Independente foi o início do projecto político do Dr. Paulo Portas"
Eduardo Dâmaso, sub-director do jornal Público
Bush on tour
O nosso amigo chegado Georgie continua por estes lados do Atlântico, no continente que, de tão velho e caquético, lhe deu tantos dissabores ao não gritar Amén a torto e a direito perante as suas pretenções lunáticas entre o ditador e o bom samaritano. Georgie é nosso aliado, não se esqueçam. Esteja ele onde estiver, basta marcarmos o número da Casa Branca que ele combina logo um cafézito com a malta. Porque se não fôr pelo prazer de pedir emprestado o Air Force One, isto de ter aliados trás mais amarguras que vantagens.
Bush encontra-se em Bratislava, bela capital da Eslováquia. Bratislava deve ter o tamanho da cidade de Évora, uma cidade que não deverá ter mais de 100 mil habitantes no centro urbano, com um núcleo histórico muito bem conservado e a eterna herança de ser o parente pobre da antiga Checoslováquia. Pronto, Bush está lá, a contaminar um pouco a pureza da terra e juntar-se-à a outro dos seus belos amigos (é uma ligação que advém da equivalente desequilibrada condição psicológica), Vladimir Putin. Na mesa vão estar temas prementes: o combate ao terrorismo nuclear (existe um?), o recuo da Rússio em algumas das iniciativas democráticas de Bush e se a pila comunista é ou não mais fogosa que a pila republicana.
Intriga-me. Terrorismo nuclear? Ia jurar que o único país a ter feito uso de armas nucleares tinha sido os EUA. O quê, Irão? Têm provas da mesma forma que tinha provas das armas de destruição maciça no Iraque? *Cough* *Cough*. Coreia do Norte? Esse sim, talvez seja um problema, mas não será com paternalismos do género "You can't have nuculear [sic] weapons because we won't feel safe. You are a Cats lover Saturday Night Fever worshiper freak, Kin Jong Il!". Sou só eu que acha que é idiota causar uma guerra para prevenir a possibilidade de uma guerra?
Recuo da Rússia em medidas democráticas? Putin tem dessas coisas, mas aquele esgar não engana ninguém: é um psicótico ainda mais profundo que Bush. Avanços e recuos é uma boa estratégia para impressionar os vizinhos. Ora somos bonzinhos, ora somos mauzinhos. Resumindo: não fique numa situação em que é feito refém para lá dos Urais. O mais provável é a Equipa Especial de Salvação De Situações Fora de Controlo acabar por matar todos, just in case.
Ah, para finalizar. Dizem as más-linguas (neste caso, de uma exilada cubana que foi marcada com um ferro quente na língua quando era criança; daí ser uma má língua) que as republicanas são pouco fogosas, que eles gastam todo o fogo a bater nos outros. E as comunistas já não sabem a nada, já que toda a gente encosta a saliva aquele fogo. Quanto muito "sera una pilha in brasa", disse ela no espanhol macarrónico dos cubanos.
Pormenor delicioso: a volta à Europa é tratada como European goodwill tour
Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005
Marx Mendes
Será acidental a semelhança nos nomes?
A Esquerda pede que não mandem mais ninguém para o lado canhoto da barricada. Se não, onde se mete a Carmelinda Pereira?
Boris Vian
Les gousses vous avez raison
raison de taillader les sexes érigés
comme les cous tendus des poules vers le grain
raison de recracher le sperme âcre et gluant
raison de rejeter l'éventrement brutal
nous ne vou aimons pas
Nous n'avons pas besoin de vous les gousses
nos sexes resteront las et morts devant vous
sexes mous, plus méprisants
que vos miroirs qui vous regardent
pourtant nous aimerions parfois nous abreuver
du lait frais de vos figues fendeus
broyer entre nos dents vos seins aux pointes sombres
écarter de nos mains douces vos coins d'ombre
et blottir notre langue au creus de vos vagins
plus beaux de n'avoir pas connu le coutre révoltant
le doigt capuchonné plein de foutre et de sang
in Écrits pornographiques
Decidi tentar pôr o meu francês na ordem do dia (se é que ele alguma vez esteve nesse patamar) e então juntei o útil ao agradável. Aproveitei a recente paixão por Boris Vian para comprar um livro seu em francês, o mais fininho que consegui encontrar. Nesse sentido, transcrevo aqui um dos poemas na versão original (sinceramente, não confirmei para ver se havia erros, but then again...). E eis que surge de imediato a primeira dúvida: les gousses pode querer dizer dentes [de alho] ou vagens (de acordo com o BabelFish). Num escrito pornográfico? Hmm...
Não digam a ninguém, mas eu cá acho que isto é um poema sobre lésbicas.
Terça-feira, Fevereiro 22, 2005
Baú 
Fui à arca da infância procurar pérolas que só a inocência infantil consegue contextualizar. Infelizmente, do texto que se segue desconhece-se o real autor. Não é um Enrique Vila-Matas nem um Fernando Pessoa, mas tem algo de simbólico na sua escrita que só está ao alcance do mais pueril raciocínio. E por isso é belo.
AS RÃS
Eu gosto muito de rãs. As rãs arrotam a noite toda. As rãs são mais pequenas que as vacas e mais grandes que um pintelho. As rãs não têm pintelhos. As rãs põem ovos pela cona que depois dão râzinhas pequenas. Se as rãs tivessem pintelhos na cona arranhavam os ovinhos que são muito pequenininhos e as rãzinhas que estão lá dentro iam morrer porque entrava água pelas arranhadelas e elas morriam afogadas e porque quando são pequenas não têm patas e não sabem nadar. Eu também ainda não tenho pintelhos mas já sei nadar. Também ainda não tenho cona mas um dia vou ter muitas. As rãs são as mulheres dos sapos. Os sapos não têm unhas por isso não podem coçar os colhões. É por isso que eles andam com as pernas abertas a arrastar os colhões que é para os coçar. E quando se picam nos colhões os sapos dão saltos. As rãs também dão muitos saltos, por isso têm a cona sempre aos saltos. Eu gosto muito de rãs. E gosto muito de sapos.
Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005
O Mal de Montano
Enrique Vila-Matas dá este nome à doença que aflige todos os que sofrem de um excesso de literatura. E o que é isso de ter literatura a mais? É ler e querer tanto às letras que não consegue evitar-se a análise de todo o mundo através dos livros. Um dia chuvoso é mais que uma mera concentração de gotículas, de saturação de humidade no céu: passa a ser uma metáfora, uma citação de Eça de Queiroz ou Balzac. Não acordamos tristes: "doí-me a cabeça e o universo", como o diz Pessoa. Isto é o mal de Montano, a supremacia da literatura em tudo na vista. Diz quem analisa os livros que a literatura ajuda a compreender o mundo. O mal de Montano surge quando SÓ a literatura consegue compreender o mundo.
Montano é o filho do autor, escritor, crítico literário. Entram actores com cara de Nosferatu e uma obsessão familiar que se traduz no uso e abuso do matrónimo (pseudónimo da mãe). Mete géneros diferentes, dimensões diferentes e uma eterna confusão entre ficção e realidade, até porque não interessa onde acaba uma e começa a outra.
O Mal de Montano acaba por provocar uma reacção que é comum a uma das suas personagens: somos visitados pelas memórias de escritores, transformando-nos, por breves instantes, em agentes dessa literatura que os caracteriza. Somos todos eles enquanto continuamos a ser nós próprios
E depois pousa-se o livro e já voltamos à nossa vida.
Domingo, Fevereiro 20, 2005
Natal
Este é o meu último comentário político (espero que por algum tempo). Aqui vai:
É Natal. Esquerda vence, Paulo Portas demite-se. Nota: dignidade absoluta no discurso do futuro ex-líder do PP (ou teatro, we'll never know). Não esperava maioria absoluta do PS porque Sócrates é um vazio de ideias. Preferia que as propostas fossem discutidas à esquerda, com a renovação (sempre ortodoxa, entenda-se) da direcção do PCP e o boom do Bloco. Enfim, não se pode ter tudo.
Dois episódios a registar: Santana foi recebido no comentário aos resultados como se tivesse vencido. Será que ainda ninguém tinha avisado o público? Melhor que isso foi a adaptação da música do SLB versão alaranjada. Ainda soa pior. O segundo episódio prendeu-se com a técnica de realização na aproximação a estes discursos. Muito se esforçaram os realizadores de SIC e TVI por mostrar o impacto que as palavras proferidas estavam a ter no público. E nisto fizeram planos de gente a chorar, de tão emocionadas que estavam. Uma música ajustada e seria um drama de série B. Curioso foi o facto de Santana também não ter percebido que perdeu. Ao que parece 27% e trocos não é tão mau como parece [sic]...
Tou confuso, já nem sei o que dizer. Até fora do poder Santana me espanta.
Enfim, estive a ler e não era nada disto que queria dizer. Que se lixe. Vou comer um iogurte. Do LIDL.
ADENDA INTELIGENTE
Finalmente Santana teve o que pediu e fez história: deu à memória de Sá Carneiro algo inimaginável - Uma Maioria, Um Governo, Um Presidente. Da oposição.
ADENDA NÃO TÃO INTELIGENTE, MAS UM POUCO ENGRAÇADA, DEPENDENDO DA PERSPECTIVA DE QUEM A ANALISA
O Largo do Rato está ao rubro com gente aos berros. Não compreendo. Quem os vê, até parece que o PS ganhou o Euro 2004.
Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005
Isto não é spam
EXTRA NOVO SUPER DELUXE S M L XL XXL XXX NOVIDADE SALDOS OFERTA COMPRE JÁ BÓNUS BRINDE SORTEIO SURPRESA M&M S&M CHEAT LIE & STEAL TALK SHOW STAND UP get down LIGUE VISTA ASSISTA VENHA VÁ VOLTE TELEFONE HOJE MESMO!!! VISITE TIME SHARING shareware freeware abandonware tupperware POP. ROCK. HARD. HIPHOP. RnB. URGENTE! ATENÇÃO! WALK DON’T WALK TELEMARKETING PAY PER VIEW CINEMASCOPE IMAX DOLBY SURROUND STEREO AM/FM ESTREIA MUNDIAL PELA PRIMEIRA VEZ EM PORTUGAL ANUNCIADO NA TV CHIC KITSCH MP3 USB BLUETOOTH GPS ASCii SMS MMS ZBR VCR DVD PS PSD CDS CDU PS2 FCP SLB SCP VIDEOCHAMADA TELECONFERÊNCIA BACK SUPPLEX FITNESS JOGGING YOGA ENLARGE YOUR PENIS LIVE HAPPY+OBEDIENT BESTSELLER SELLOUT BLOCKBUSTER REMAKE REMASTER REMIX ANTHOLOGY MYTHOLOGY ALELUIA
AMÉN, ENJOY…
“Old George Orwell got it backward.
Big Brother isn’t watching. He’s singing and dancing. He’s pulling rabbits out of a hat. Big Brother’s busy holding your attention every moment you’re awake. He’s making sure you’re always distracted. He’s making sure you’re fully absorbed. He’s making sure your imagination withers. Until it’s as useful as your appendix. He’s making sure your attention is always filled.
And this being fed, it’s worse than being watched. With the world always filling you, no one has to worry about what’s in your mind. With everyone’s imagination atrophied, no one will be a threat to the world.”
Chuck Palahniuk, Lullaby
O Santuário de Fátima decidiu dar início à prática diária de orações para pedir chuva. Já agora, peçam-me o EuroMilhões também.
A pé
Aproveitei a tarde vazia para fazer algo que já não fazia há muito: andar. Caminhar pelo puro prazer de o fazer, sem haver um ponto B onde chegar. Até ficar cansado. Repara-se em pormenores que só agora nos saltam à vista, vê-se um casal estrangeiro aqui e ali, a estranhar a paisagem e orgulhamo-nos de fazer parte daquele momento. Alguns ciganos tentam vender óculos de sol. Vestem fato. A rapariga que vende bijuteria na rua tem buço, mas não se importa. Às vezes cheira a castanhas, outras vezes a fósforo. E o sol só aquece um bocadinho neste frio à beira-Tejo.
Protesto pela Segurança Pública
Entendo que se proteste por melhores condições para exercer uma função, seja ela qual seja, e a polícia tem esse direito, como é óbvio. O que eu não entendo é porquê agora. Se fossem banqueiros naquele carro, que se fazia? Levar um tiro não é um risco inerente à profissão? Que se proteste para que se prendam e julguem os assassinos, compreendo. Agora fazer a violência na Cova da Moura (e logo onde) bandeira para reivindicações laborais parece-me despropositado.
Sugestão: que tal, enquanto polícia, tentarem prender os maus que dispararam à patrulha que passava?
Nós? Escravatura? Nah...
O ex-presidente moçambicano, Joaquim Chissano, lembrou o evidente: Portugal (entre outros) ainda não pediu desculpa pelo facto de ter usado e abusado das suas colónias, contribuindo de forma quase irreparável (e que hoje a direita prefere classificar de "preguiça negra") para que África seja o poço de inactividade que é, tendo em conta que é o continente com mais potencial.
Chissano lembrou a escravatura, o abuso da mão-de-obra sob o pretexto do progresso, o facto de África ter sido irremediavelmente colocada na zona periférica do mercado capitalista.
Espantosa é a atitude de surpresa perante as palavras de Chissano. É insultuoso ficar sentido com as palavras do ex-dirigente africano. Muito gostamos de alimentar a ilusão que fomos uns "queridos" e que sem nós "não haveria estradas nem nada de progresso em África".
Já alguém se questionou que se o progresso em África se deveu única e exclusivamente ao movimento colonizador, esse movimento foi pura e simplesmente uma grandessíssima merda?
Quão cínicos conseguimos ser? Deslumbra-me no pior sentido da palavra o apelo à moral cristã que se faz de Lisboa a Moscovo e se esqueça o que de mais básico ela tem: até Karol Wojtyla(O Papa João Paulo II) pediu desculpas a Galileu, porra... Estamos também à espera que passem 500 anos?
De um português, as minhas desculpas.
Absolutismo vs. Responsabilidade
Depois da lógica da birra de Vital Moreira (ou nos dão tudo que queremos ou já temos uma desculpa para nos portarmos mal), eis que Sócrates continua a sua árdua competição com Santana para a tirada mais idiota de toda a campanha.
Ontem, em comício no norte do país, Sócrates sai-se com algo do género:
Dêem-nos a maioria absoluta porque Portugal precisa de um governo para quatro anos e não um governo que caia passado um ano.
A minha questão é: só os governos com maioria absoluta duram 4 anos?
Cada vez mais a maioria absoluta de Sócrates parece uma irresponsável maioria absolutista...
João César das Neves ao Independente...
A masturbação é uma prática razoável?
"Claro que não. Nunca o foi. [...] Porque é um desvio da acção sexual. A pessoa fica cada vez mais agarrada ao prazer, deixa-se controlar pelo prazer. Isso distorce a personalidade."
"Com o preservativo a relação sexual passa a ser a mesma coisa que comer um pastel de nata."
"Hoje são os homossexuais que querem legalizar a sua união como igual ao casamento. Amanhã será a poligamia, depois o incesto, depois – porque não? – a bestialidade."
Às vezes é tão evidente por que razão João César das Neves se dedica a Keynes e Júlio Machado Vaz a Kinsey...
O artigo completo aqui.
Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005
Comentário sobre terrorismo
A TSF não se cala com os dois alegados terroristas da ETA capturados em Valência. Eu quero é ver se o alarmismo será o mesmo quando São Bento fôr tomado de assalto no domingo...
A ETA não é nada comparada com Santana ou Sócrates.
Notícia Le Monde/El Pais/NY Times/The Guardian para 21.02.05
A sinistralidade rodoviária continua a fazer de Portugal um país sanguinário para os seus nativos. Não bastava o traçado do IP4, as intermináveis obras na A1 e os cruzamentos nivelados da EN125, os portugueses lideram, novamente, a pior das listas: a dos choques.
Tecnológico?
Gestão?
Valores?
Pior, todos juntos.
P.S.: E como se não chegasse, ainda se falou do Homem Total de Marx. É que a citação do Super Homem de Nietzsche já tinha sido usurpada por um partido qualquer noutro extremo do espectro político
A política em Portugal...
... é como o coito interrompido: não é bem bem o que gostaríamos que fosse, mas o que as circunstâncias obrigam que seja.
Politiquices aparte...
Resposta masculina àqueles dias como o dos namorados, de simbolismo extrapolado pelo sexo feminino, colocando tudo que é homem sob teste... Errar é o primeiro passo para uma vida clerical, já que o celibato será longo. Daí que se pensa: se é exigido aos homens que combinem o melhor do século XXI com o melhor do século XV (cavalheirismo, romantismo e outros ismos de teatralidade notável), porque não exigir o mesmo de volta?
E depois de muito pensar, eis a conclusão a que nós, homens, chegamos...
Terça-feira, Fevereiro 15, 2005
Os cinco sentam-se à mesa
by Enid Blyton
Finalmente, um debate! Finalmente, uma discussão com tudo aquilo a que temos direito e estamos habituados. Se Salazar dizia que "Beber vinho é dar o pão a um milhão de portugueses" então eu digo: cala-te, oh alcoólico fascista! E continuo vociferando enquanto concluo que um debate sem a interrupção a torto e a direito da palavra do amigo (que a seguir há uma tainada marcada, eu bem sei...), em que na verdade não se explica nada em concreto (foram precisos 30 minutos até Jerónimo de Sousa, numa das sua meia dúzia de intervenções, propor o usufruto da cláusula de salvaguarda contra o dumping têxtil chinês que se avizinha - é caso para dizer: Até Amanhã, Camarada!), ou seja, conversa de café, não é debate que se preze. Qual importação do modelo americano cheio de luzes coloridas, nem pensar! Deixemos isso para democratas e republicanos e usemos a velha fórmula europeia.
Analisando agora o debate. Primeiro, foi uma pena que Jerónimo de Sousa tivesse sido atacado pelo vírus (fascista, certamente) da afonia. Sinto sincera comoção porque penso que seria o único político que acreditaria realmente no que tinha para dizer. Ficou a perder o debate e muito.
O centro provou duas coisas: 1. Se a sua capacidade de governar for directamente proporcional à sua capacidade de falar, estamos, a bom português, fodidos; 2. Estamos fodidos!
Santana Lopes bem tenta preparar-se para o debate (e como nos surpreendeu no frente-a-frente com todos aqueles números; claro que não fazemos a mínima ideia se eram verdadeiros ou não), mas acaba por ser apanhado na curva. E foi apanhado em flagrante com o benefício de 400 mil contos dado ao grupo Totta. É legal? Certamente. Deveria ser legal? *Cough* *Cough*, que me falha a voz como ao camarada Jerónimo.
E que dizer de Sócrates? Ele não queria muitos debates e lá saberia porquê. Agora sabemos todos: completa e total nulidade a nível verbal. Não explicou uma única posição. Limitou-se a comparar com PSL quem fez o quê pior. "Ah e tal, os senhores pioraram o desemprego."; "Nah nah, os senhores é que fugiram quando viram o pântano que estavam a criar" (repetir até à exaustão). Fantástica foi a sua resposta (aqui transcrita em descontexto) à uma intervenção de Jerónimo de Sousa sobre as propostas concretas que haveriam para garantir a sustentabilidade da segurança social: "Propostas, nós? Não. Nós não temos propostas para nada disso...".
Sabendo que o vencedor sai daqui, tenho de concordar com o movimento Um Rumo para Portugal: o nível da classe política é cada vez mais baixo.
E quem sobra? Os dois claros vencedores (e que animaram o campeonato pelo 3º lugar, já que a CDU não pode intervir directamente nesta discussão) foram Louçã e Portas. Muito fiéis a um discurso ideológico de k7 (chato, moral, mas eficaz), prepararam exemplarmente o debate. De um lado, Portas demarca-se, subtilmente, do PSD, com gráficos e dados concretos e "os acordos são para cumprir, talvez, assim assim, nem pensar" (citação adulterada por mim, obviamente), arrancando do José Alberto Carvalho a frase da noite: "Já percebemos que o único ministério a criar emprego foi o do Dr. Paulo Portas". Às páginas tantas, já imaginavamos Santana dizer: "O Sr. Portas? Esse gosta de outros colos...". Não vou contextualizar que isto tem muito mais piada dito assim, do nada.
Quanto a Louçã, num tom de voz que teima em não descolar do tele-evangelismo que Sousa Tavares lhe colou, compensa o audio com um discurso coerente, bem preparado, com boa capacidade de resposta e, principalmente, SEM RESPOSTAS RADICAIS ÀS PROVOCAÇÕES DE PAULO PORTAS. Não houve discussão do aborto e isso facilitou-lhe a vida. A tirada do grupo Totta deu-lhe pontos, o discurso final deu-lhe ainda mais pontos.
Que se pode concluir quando os vencedores de um debate a 4..3 (já que não foi a 5) são os partidos mais pequenos? Que estes se prepararam melhor. Que estes expressaram-se melhor. Que estes não contam com o ovo no cú da galinha e têm, cada um à sua maneira, uma vontade real de participar activamente na campanha (já que participar na governação do país não é uma promessa, apenas uma meta aspiracional de ambos). Prova-nos também que os discursos dos extremos da esfera política portuguesa e não-necessidade de ir captar votos ao centro permitem um discurso organizado, bem dirigido e directo, sem aquelas ambiguidades dar com a esquerda e tirar com a direita para tentar agradar a gregos e troianos.
Daí, será com muito gosto que verei estas duas forças crescerem nas eleições de domingo, em clima de democracia, esbofeteando (sem a teoria do voto em branco de Saramago) PS e PSD. O poder não é do centro só porque são o centro. O poder é de quem o merecer. Portugal tem uma história de cair para um extremo da ditadura. Outros países terão caído para um outro extremo qualquer. Cabe aos dirigentes mais moderados garantir que isso não volta a acontecer.
Porque apesar de Louçã e Portas serem meritórios vencedores deste debate e faces visíveis de partidos democráticos, um e outro não deixam de causar uma certa urticária quando pensamos que podem ser Kim Jong Il's e Benito Mussolini's em potência (e relativismo histórico... não quero ser processado por estar a dizer que eles são REALMENTE essas figuras em potência).
O problema é que isso é um pensamento que nos vem demasiado facilmente à cabeça...
Crónica de uma morte anunciada
E quem pensaria que morrer daria origem a tanto discurso, bem mais do que deu enquanto esteve viva. Vejam-se, por exemplos, os dois casos que se seguem: de um lado o Barnabé, numa reflexão, a meu ver, muito bem estruturada, mas que não passa de isso, de uma reflexão especulativa; do outro lado O Acidental, um dos melhores blogs de direita que para aí anda.
Sem querer entrar em julgamentos políticos desnecessários (porque a morte de uma pessoa nada tem de político), fica mal ao PPM enquanto crente (e isto sou só eu a especular) associar qualquer reflexão que não entre nos cânones que a Igreja Católica nos transmitiu a uma esquerda ressabiada e à extrema-esquerda em geral.
Sim, concordo, a esquerda ideológica distancia-se da religião (mas, em pleno século XXI, é idiota que considere que existe um propósito de negação ou de humilhação de quem tem fé) e até entendo alguns atritos (se calhar o facto da Igreja nunca se ter demarcado de grandes regimes de extrema-direita na Europa [o fascista, por exemplo) ou de os ter, inclusivé, apoiado [Portugal e Espanha] cria alguma sarna na esquerda...).
No entanto, pretender abster a Igreja Católica de toda a reflexão meta-religiosa é ainda mais idiota, não concorda? O que está em causa não é a fé das pessoas (que, apesar de infundada, é inteiramente sincera). A questão que se coloca prende-se com a possibilidade de este ensinamento da Igreja Católica ter sido instrumentalizado. Se os políticos estão a instrumentalizar a morte de Lúcia (como a Inês muito bem referiu), porque é tão estranho que a própria Igreja faça o mesmo?
A História não o deixa mentir quando refere a esquerda comunista e as suas (péssimas) aplicações práticas. Reconhece-se, no entanto, que essa História escabrosa só terá rival na Inquisição, no Index, nas Indulgências, na Evangelização à Paulada, no Silêncio, na insistência em construir uma religião que tem muito dos homens e muito pouco de Bíblia. E, sem querer alarmar fés, veja o post abaixo em que cito a própria Bíblia numa imprecisão tão típica à estrutura da Igreja Católica. Mais uma vez (e isto não tem a ver com fé, tem a ver com factos, já que a fé DEVE SER também a fé nos factos): Virgem? Só se for das narinas!
Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005
Adendas histórico-teológicas
Os três segredos de Fátima:
1. Uma visão do Inferno como algo quente, vermelho e mau.
2. A conversão da Rússia ao Cristianismo salvaria a humanidade.
3. Uma visão do Papa a ser morto por um grupo de soldados numa cidade em ruínas.
E pronto, foi só isto. Tanta coisa para isto. Esperou-se 24 anos para se saberem os dois primeiros segredos (um é senso comum, o outro teima em não se realizar) e 83 anos para se chegar à conclusão de que o Papa irá, eventualmente, morrer.
Três crianças que viram uma luz, uma delas (Lúcia) falou com a luz e terá tido seis conversas entre Maio e Outubro de 1917. Em qualquer outra altura da História, os petizes passariam por mentirosos, idiotas, "com essas coisas não se brinca", brincalhões, imaginativos, conspurcados por uma sociedade do imediatismo audiovisual. Mas não, nestes três muita gente acredita...
E para lançar a dúvida aos mais crentes.
"Falava ainda Jesus ao povo, e eis que sua mãe e seus irmãos estavam do lado de fora, procurando falar-lhe. E alguém lhe disse: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar-te." Mateus 12:46,47
Virgem? Só se fôr das orelhas...
Domingo, Fevereiro 13, 2005
Lúcia RIP
De acordo com meia dúzia de órgãos de comunicação social, a Lúcia "foi-se", "perdeu-se", "efectivou a sua passagem".
Duas questões.
1. Sempre pensei que era filho único.
2. Aos 97 anos e muitos meses, à nossa casta Lúcia acontece-lhe de tudo... E morrer, é pra quando?
Adenda
O nosso primeiro em gestão anunciou dois dias de luto nacional e que não vai fazer campanha durante esse luto. Mais duas questões.
1. Aí tá o Pedrocas a tentar gamar votos ao Paulinho
2. Quando é que deixamos de ser um país laico para se decretar luto nacional a partir da morte de uma figura religiosa? É que se fosse o Papa, ainda vá que não vá, agora a mana Lúcia?
Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005
Longos dias...
... foram ontem e hoje. Não bastava ter-me cruzado com o Sr. Ordenado para as Mulheres que Querem (leia-se Devem) Ficar em Casa a Tomar Conta dos Putos e Deixar que Quem Tem As Calças Se Mate a Trabalhar Para Garantir o Pão Nosso de Cada Dia (que era seguido por uma multidão de fiéis, digamos uns 5 ou 6...), como hoje sou obrigado a bebericar um dos cafés do dia enquanto o futuro primeiro de Portugal se pavoneava por ruas cheias de história debaixo da ventania causada pelas bandeiras do PS.
Não bastasse o choque quase frontal com dois políticos de primeira linha em menos de 24h para causar uma Náusea (mesmo assim, com N maiúsculo), como ainda tive de ouvir os berros estridentes dos figurantes que o seguiam nestas já tradicionais pseudo-arruadas (JS? Indivíduos contratados aos Às Duas por Três? Algo de intermédio?).
Irritou-me. Irritaram-me ambos. E depois pensei numa forma de causar algum embaraço perante as câmaras de TV que o seguiam:
E se eu lhe fosse lá pedir um beijinho ao Shôr Sócrates?
Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005
Marxista capitalista?

«Documentos recentemente expostos nos Arquivos nacionais de Londres trouxeram uma insuspeita faceta de Karl Marx: o 'pai' do Comunismo era, afinal, sócio capitalista de um jornal britânico. (...) O achado não surpreendeu, contudo, Sue Laurence, administradora dos Arquivos. "Não é uma surpresa encontrar Marx nesta actividade. Durante os anos em que esteve exilado em Londres vivia como um burguês, financiado pelo amigo Friedrich Engels. De todos os investidores do jornal, só Marx não tinha uma profissão que lhe providenciasse sustento".» Correio da Manhã, 02/12/2004.
Bem, agora é que me lixaram o esquema. Ainda bem que só descobri isto depois da adolescência ou não tinha sobrado ninguém para citar nas bebedeiras ideológicas dos 16 anos...
Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005
Debate
Como disse Fernando Alves, na sua habitual rubrica na TSF chamada Sinais, o debate de ontem pareceu uma conversa entre semáforos. É certo que impediu espalhanços monumentais (se bem que a resposta de Santana ao aumento das pensões passar pelos estágios profissionais interferiu um pouco com a minha sobriedade), mas faltou a ambos golpe de asa. Foi tudo muito plástico e quando tentou afastar-se da rigidez do formato, deslizou para uma incapacidade de se ser conciso e substancial. Ou seja, com dois minutos e meio para cada resposta, passava-se 1m30s a falar dos boatos, mais 30s a antecipar a resposta e os 30s final a entreabrir a possível solução para o problema que lhes é posto. Respostas é que nem vê-las! Colocar mil licenciados é um choque tecnológico? E manter o OE 2005 e o Código de Trabalho é um choque de gestão de que forma?
A plasticidade do discurso de ambos minou qualquer capacidade de esclarecer o mais desatento dos portugueses. Apenas confirmaram-se as palavras-chave da campanha. Sócrates insistiu em "mudança", "confiança", "é injusto" e outra coisa qualquer... E de Santana só se ouvia "Eu não insinuei.. Blá blá.. Béu béu!" (sou auditivamente alérgico ao gel).
Quem ganhou o debate (aquela conversa de malucos) foi quem não esteve lá. Vejam lá que eu até fiquei convencido que o Jerónimo de Sousa conseguiria safar-se melhor (nem falo de Louçã ou Portas que só por manifesta boa educação não violariam consecutivamente e com um grafismo de snuff movie os [in]argumentos dos dois mais fortes candidatos a primeiro-ministro [sic]).
Conclusões, só uma: o debate esclareceu-me em quem votar! Em nenhum dos dois.

