Informação do século XXI. Factos para quê ? Info-desentretenimento de alta qualidade. Montagens de alta resolução. Registos sonoros editados completamente fora do contexto. Uma espécie de TVI meets 24Horas interactivo. Sete mentes depravadas em repasto intelectual.

Quinta-feira, Junho 16, 2005

Ou muito me engano ou vai fazer-se História

Estou com a leve suspeição que sábado vai marcar o ano de 2005. Manifestação de extrema-direita para o Martim Moniz, onde deverá estar a acontecer a Festa da Diversidade. Ou seja, a gasolina vai passear-se para o meio da fogueira. E depois, que acontece? De um lado, extrema-direita, nas suas formas mais e menos cabeludas, mas eternamente brancas. De outro, a esquerda, qualquer outro que não concorda, simplesmente porque não, ou porque é preto, ou porque é emigrante, ou porque é criminoso, ou porque não é nada destes mas não encontra nexo causal entre emigração e criminalidade (como não se encontrou na França da década de 60 e 70). E quando as provocações ultrapassarem as barreiras da decência (e, acreditem, isso é mais que provável)? Quando a profissão da mãe de alguém for metida ao barulho? Quando o excesso de melanina ou o deficit de cabelo servir de desculpa para a agressão? E aí, que se faz? A polícia intervem e será agressão policial? A polícia fica quieta e será laxismo de autoridade? A política escolherá um lado? E qual lado? E na confusão, quem agride quem? Não me parece que se vão levar camisolas clubísticas para se distinguirem no meio da multidão. Será um batalha de raças? E então os brancos que defendem os pretos e vice-versa? E será que imigrantes de Leste irão agredir descendentes de angolanos? Será que moçambicanos brancos salvarão skins por engano? Não se encontra na História das democracias uma única situação em que o poder policial conseguisse deter com eficácia uma forte movimentação de massas. Não me parece que isso vá acontecer desta vez.

Ou muito me engano, ou vai fazer-se história este sábado. O pior é que poderá ser feita à maneira medieval.

Quarta-feira, Junho 15, 2005

"Recusei-me a tomar a vacina para a febre amarela por um motivo: já tinha tido febres de todas as cores e era injusto deixar o amarelo de fora.""

Ondjaki

Sexta-feira, Junho 10, 2005

http://free.freespeech.org/suds_unite/main.html

Quarta-feira, Junho 08, 2005

Dez melhorias para a imprensa do futuro

Caros colegas, desde ontem "especialistas em comunicação" sob o condão académico, saibam que 2004 foi um óptimo ano para a Imprensa Mundial.

A circulação global de jornais aumentou 2.1%.
O número de novos títulos aumentou 2%.
A publicidade aumentou 5.3%.

Como vêm, não há motivos para preocupações. Há, no entanto, algumas coisas a fazer, de acordo com o relatório da WAN sobre a imprensa para 2004.

Terça-feira, Junho 07, 2005

I'm meeeelting

Ainda bem que essa coisa do efeito de estufa é uma invenção, porque se não fosse estávamos fodidos...

Como funciona a meritocracia num sistema voyeurista? Que tem de fazer alguém que é vigiado e avaliado pelo seu comportamento do dia-a-dia para que essas acções vão de encontro aos desejos de quem lhes avalia o mérito para continuar? E se essa meritocracia se baseia na capacidade que cada um tem de agir de um determinado modo no dia-a-dia, independentemente das suas capacidades ou resultados, afinal que pesos desequilibram a balança da decisão? Se um governo pretende votar uma lei ou um tratado constitucional numa direcção e a maioria da população caminha na direcção contrária, que diz isso da democracia representativa? E do conceito de representatividade? E dos políticos? E de quem votou nos políticos? A que meritocracia concorrem eles? Julgá-los-emos pelos actos ou pela sua pose no dia-a-dia? Preferimos o mau e eficaz ou o simpático incompetente? Se os políticos participassem num reality-show, quantos dias demorariam a serem eliminados? Santana venceria o Big Brother? E Carrilho, vencerá a CML? Quem sabe melhor, o Sócrates austero do dia-a-dia ou o Sócrates das medidas austeras? Quem tem mais mérito, aquele que dá pão e circo ou aquele que acaba com a palhaçada e quer comer Bacalhau à Brás?

Todas estas questões são seleccionáveis para Seminários.

Domingo, Junho 05, 2005

Neo-Surrealismo

A sinopse do recente filme português Adriana apela à mais complexa das correntes artísticas. Apesar de todos os elogios que o filme tem recebido (e, como ainda não vi, não poderei confirmar), a sinopse diz algo deste género:

Uma miúda açoreana vem para o Continente tentar procriar porque alguém nos Açores decidiu proibir o sexo (até o procriativo) por dá cá aquela palha. A miúda não se consegue fazer perceber, de tal fechada que é a sua pronúncia, mas quando se consegue fazer entender, os homens fogem aos seus pedidos de sexo descomprometido com uma virgem.

Percebem o surrealismo nisto?

Sexta-feira, Junho 03, 2005

Esta merecia ser transcrita...

Microfábulas - XIV

Havia, certa vez, um idoso rezingão e maldisposto que passava a velhice dedicado à pouco nobre missão de tornar a vida dos que o cercavam tão desagradável como a sua. “Lá vai o cabrão dos maus fígados!”, diriam uns; “Lá vai o Chico Zé!”, diriam os mais educados. E ele lá ia, passando os dias na rua, escolhendo as horas de maior movimento para fazer aquilo que mais pessoas estivessem a fazer: ou na fila dos Correios para “cobrar o cheque da pensão”, ou na paragem do autocarro, ou nas Tesourarias da Fazenda Pública nos últimos dias de entrega das declarações do IRS. O seu faro apurado levava-o ao mais improvável dos ajuntamentos, quer tivesse ou não qualquer coisa para fazer ali. Como morava mesmo ao lado da estação dos Correios na Rua das Mercês, passava ali todos os dias para tomar o pulso ao ambiente. Se via pouca gente, ia-se embora com um seco bom dia. Se via muita, lá ficava na fila com o pretexto de telefonar para um sítio qualquer de onde nunca atendiam. O importante era estar na fila.
- O senhor não se esteja a chegar à frente que eu posso ser velho mas não sou parvo, ouviu? Estou aqui há mais de meia hora e o senhor pensa que chega aqui e é sempre a andar?! Olhe que toda a vida ouvi dizer: quem vem atrás molha no vinagre!
- Mas eu só ia pedir uma esferográfica!
- Pois pois! Com as calças do meu pai também eu era um homem! Vocês pensam que nos atiram areia para os olhos! Como são velhos é passar-lhes à frente!
Ainda que o visado se colocasse no seu lugar devido na fila ou saísse da estação, Chico Zé não parava:
- E esta cambada de velhas sonsas não é capaz de abrir a boca! Depois admiram-se de ser roubadas e mais não sei quê! Não se dão ao respeito, é o que é! Depois admiram-se! Eu é que me admiro como é que não se põem ali dois ou três meliantes à porta da estação… era como limpar o cu a meninos!
- Então mas não vê que está ali um polícia?
- Polícia?! Você chama àquilo polícia?! Era o primeiro a fugir se aparecesse algum gatuno! Ainda há pouco saiu dos cueiros e já lhe vestiram a farda! Aquilo é um verbo-de-encher que ali está! Mais valia pôr um espantalho que ao menos não come nem caga!
- Ó homem!, cale-se!
- A senhora não me manda calar, ouviu?! A mim ninguém me manda calar!! Isso era noutros tempos!... Tens pinta de retornada, deves andar habituada a mandar! Mas olha que eu não sou preto, ouviste?!
Tudo isto para desembocar no desabafo do costume, quando chegava a sua vez de ser atendido:
- Mas uma pessoa sai de casa para quê? Para ser ofendido?!

A bem da verdade, uma pessoa era o bastante para que Chico Zé desse largas ao seu entusiasmo. Tinha por hábito estacar de repente nos passeios mais movimentados – e se alguém lhe pedia licença para passar lá vinha o arrazoado do costume:
- Pois pois… o velho está a estorvar, não é?! Uma pessoa pára dois minutos para recuperar o fôlego e leva logo rodas de parvo! Olhe que se eu sou velho é por direito mas você é estúpida por natureza, ouviu?! Muito empertigadinha, não lhe cabe uma lentilha no cu, mas no que toca ao respeito está mais nua que uma cadela! Quando chegar à minha idade é que vão ser elas! Aí é que vai ver se também gosta que a empurrem do passeio!
- Mas eu não o empurrei! Eu só lhe pedi licença!
- E ainda é capaz de dizer que não me empurrou, a sirigaita! Já não me admira que elas ganhem mais que os homens, hoje em dia! Não têm vergonha nenhuma, nem para abrir a boca nem para abrir as pernas! Isto está bem entregue, não haja dúvida!... E não me venha para cá dizer que é você que paga a minha reforma, ouviu?! ‘Inda lhes acho graça com essa de nos pagarem as reformas, pffff! Só o interesse que eu dei ao país toda a vida paga a minha reforma e a de mais quinze como eu! Quinze!, ouviu?! Eu trabalhei nas obras da Exposição do Mundo Português ainda você andava nos colhões do seu pai!! E agora vem-me para aqui dizer que os velhos são uns chulos, é?! Vocês é que nos chulam a nós!! Anos e anos nas “aniversidades” a passear os livros para dizerem que são doutores! Doutores, pffff! Para mim, doutores só houve dois, ‘tá a ouvir?! Foi o Sousa Martins e o Salazar!!

Como vivia sozinho, Chico Zé aproveitava para amortizar o passe social passeando de autocarro nas horas de ponta, ocasião que permitia regularmente umas interessantes trocas de ideias:
- A um velho doente ninguém dá o lugar mas se fosse uma mulher prenha levantavam-se logo…
- Mas o que é que tem a ver…
- O QUE É QUE TEM A VER?!! Ahh ainda pergunta?! Se ‘tá prenha é porque fodeu! Agora aguente-se, hom’essa! Eu não escolhi ficar velho mas ela escolheu apanhar com ele na pássara, não foi?! E depois ‘inda se vêm queixar que lhes dói as costas ou o catano… Havia de ser eu a mandar nisto só que fossem quinze dias!... Levava cá uma volta!... Isto ficava mais direitinho, ficava!... … … olha-me para os preparos desta gente! Eu ainda sou do tempo em que quem pintava os lábios eram as putas!!! Mas as putas do meu tempo eram mais sérias que as mulheres de hoje em dia!!! … … … olha-me ali o raio do preto a tentar roçar-se na rapariguita! oh oh oh… então mas o que é isso?! Não te ensinaram maneiras lá na merda da tua terra?! Olha que o meu irmão matou muitos como tu lá na…
Nisto, vzzzzzzzzzt!

Moral 1: os avisos da Carris sobre a conveniência de os passageiros se segurarem bem quando viajam de pé são para ser levados a sério.

Moral 2: ainda não foi devidamente valorizada a importância do clima enquanto tema de conversa anódino e inócuo, preferível o mais das vezes a outras trocas de opiniões.

Curiosidades da língua ou descubra as diferenças

Ela - That was the only time a guy phoned me.

Ele - Come on. You're telling me a guy had never talked to you on the phone?

Ela - No. I'm telling you that was the only time a guy PHONED me!